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domingo, 4 de junho de 2023

NA RUA DOS IPÊS AMARELOS



ESPERO POSTAR TODOS OS DIAS, NESTE GRUPO E NO MEU BLOG, ALGUMAS HOMENAGENS E DIVULGAÇÃO DE LIVROS DE AUTORES E AUTORAS DO MEU CONHECIMENTO, ALÉM DOS MEUS PRÓPRIOS, COM PEQUENAS SINOPSES DE LIVROS, POEMAS, FOTOGRAFIAS E MINIBIOGRAFIAS.
SINOPSE NA RUA DOS IPÊS AMARELOS
Em Belo Horizonte, Maria São Pedro recebe a notícia da futura instalação de um museu da FEB na cidade onde nascera. Como é filha de ex-combatente da Segunda Guerra, decide ser voluntária nos trabalhos do museu. Já no interior, enquanto Maria São Pedro ajuda Afonso e Mercedes nos trabalhos, retoma a escrita de uma história sobre os pracinhas daquela cidade. Quer saber se alguém na cidade conheceu o soldado que retornara com traumas, pois esse assunto era recorrente nas histórias de guerra contadas pelo seu pai. Durante as pesquisas, Maria São Pedro descobre parte de um diário de guerra publicado em jornal de 1945. Depois, tem acesso ao diário na íntegra e fica sabendo nome do autor, um dos pracinhas da cidade. Maria São Pedro aguarda contato de um parente do autor do diário e enquanto isso sai em busca dos outros pracinhas que participaram diretamente no front da 2ª guerra, acreditando que um deles seria o soldado neurótico. Paralelamente a essa busca, acontece outra história, que se passa no ano de 1944, em terceira pessoa, narrada em rezas nos nove dias que antecedem a partida dos convocados, tendo como personagem central a tia de Maria São Pedro, que possui mesmo nome. A narradora descobre que seis, dos dezenove ex-combatentes da cidade, tomaram parte ativa no front, e entre eles poderia estar o soldado que tivera traumas. Recebe, então, informações sobre um ex-combatente que ficara neurótico, e no endereço indicado, descobre que o pracinha mencionado não era o autor do diário. Depois disso, confirma que alguns dos outros pracinhas também haviam sofrido sequelas da guerra. Numa circunstância inesperada, Maria São Pedro vai ao encontro de pessoas que conheceram o autor do diário e confirma-se o trauma adquirido na guerra. Durante a trama, o diário de guerra é publicado em duas partes. A inauguração do museu acontece oito meses após a chegada de Maria São Pedro na cidade. No ano de 1944, acontece a última reza antes da partida dos convocados para a guerra.
BIOGRAFIA
Liliam de Fátima Ribeiro nasceu em Varginha (MG) em outubro do ano de 1955. Cursou Letras e Direito em Belo Horizonte (MG), onde reside atualmente. Aposentou-se em 2014 pelo Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais. Do final dos anos noventa até 2010, foi selecionada para quatro coletâneas de contos, pelo Sindicato dos Professores/MG e pela Asttter (TRT3ª Região). O romance “Na Rua dos Ipês Amarelos”, de 2020, é sua primeira publicação individual. Enquanto trabalha em seu segundo romance, tece poemas sobre temas diversos, ainda inéditos.







o

segunda-feira, 22 de maio de 2023

QUANDO DEUS NÃO É SUFICIENTE


 

Prezada Lica Campolin,

Não farei uma resenha do seu livro porque resenhas geralmente se aplicam a livros de literatura, ficção e o seu livro é um relato, um depoimento pessoal e contundente sobre uma situação dolorosa que você viveu juntamente com o seu filho Júlio que, infelizmente, veio a falecer. Mas é também uma história de vivência e de aprendizado.

O seu livro inicialmente me convidou à leitura devido ao título que achei instigante. Depois reparei e gostei da capa, ainda não sabendo do que se tratava e o que representava. Mas logo você explica que são nomes de alguns doadores de sangue e de medula óssea que fizeram para o seu filho. Então lembrei-me das dezoito transfusões de sangue que tiveram que fazer em mim enquanto eu estive internado e inconsciente no c.t.i por 90 dias.

“primeiro a gente põe o pé,

  depois Deus coloca o chão”

Gostei mais da segunda parte do livro, ou seja, suas reflexões depois da morte do Júlio. Foi, sem dúvida, a melhor parte embora se referisse, na verdade, à pior parte vivida por você, ou seja, a ausência do seu amado filho.

Então, conforme seu convite na contracapa, pulemos juntos neste abismo. Só depois, bem depois é que reparei que aqueles nomes na capa formavam um esboço do rosto do Júlio Campolin. Na verdade, todos nós somos apenas um esboço e não passamos disso e “Deus não é mesmo suficiente”.

Que não se procure no seu livro muita literatura e nem foi esse o seu propósito ao escrevê-lo. Simplesmente teve que escrever para tentar expurgar a dor. Mas há momentos literários no livro como na página 153, um verdadeiro poema.

Vou abrir aqui um parêntesis para explicar o que eu disse anteriormente e o faço com o propósito de compartilhar o que vivenciamos e que, de uma certa forma, se assemelham. Você faz explicitamente um louvor e um agradecimento à equipe médica que cuidou do seu filho, especialmente a um médico em particular. Não tive a mesma sorte.

Em 2016 tive que fazer uma cirurgia aparentemente simples que, por imperícia médica, se complicou e quase perdi a vida, embora persistem e irão persistir pelo resto dos meus dias as sequelas de um derrame cerebral que eufemisticamente chamam de a.v.c. Prefiro a forma antiga quando se denominavam as coisas pelo que elas realmente eram.

Enfim, tive este episódio dentro do próprio c.t.i, num hospital em que entrei para fazer uma simples cirurgia por vídeo e disseram-me que dentro de três dias eu teria alta e depois de quinze dias poderia voltar ao trabalho e à vida normal. Acabei ficando 90 dias entre a vida e a morte, em coma, e estou hoje aposentado por invalidez permanente e irreversível.

Mas como se diz por aí “vida que segue”. Só abri este parêntesis para dizer que eu, estando inconsciente, minha esposa, que estava o tempo todo atuante e ativa vivenciou mais ou menos, ou seja, de uma forma semelhante tudo que você narra em seu livro. Com a diferença de que eu, ao contrário do seu filho, acabei pendendo para o lado da continuidade da vida e até mesmo os próprios médicos dizem não entender como eu pude sobreviver. Mistérios e muitos dizem que deve haver nisso algum propósito que eu não sei qual seja e nem sequer consigo alcançar. Como no seu livro Lica, são perguntas e perguntas e muitas questões para as quais eu acho e acredito que nunca obteremos respostas.

Mas afinal, apesar das dificuldades e das dores que eu sinto, ainda agradeço, pois, o meu cognitivo não foi afetado, como comumente acontece nesses casos, e prossigo escrevendo e publicando os meus livros até a hora fatal e derradeira.

A página 193 do seu livro é maravilhosa e transcrevo-a aqui, desejando que sirva sobretudo para você e para todos aqueles que sofrem. Espero e desejo sinceramente que você possa suplantar como no capítulo final de “Quando Deus não é suficiente”.

 

...”às vezes, o coração rasgado pela dor, vira retalho.

recomenda-se nesse caso,

costurá-lo com uma linha chamada recomeço

é o suficiente”...

(A. Santos)

 


 

 

sábado, 20 de maio de 2023

VIDA ABERTA

 


O COMPÊNDIO DE SOLHA

 

“VIDA ABERTA”, livro recentemente lançado pela Penalux, do poeta/escritor Waldemar José Solha. De tal modo que se alguém perguntar do que se trata o referido livro, mostre a ele o poema do João Carlos Taveira e diga: trata-se disso!

Quatro expressões me acorrem ao terminar de ler, pela segunda vez, o livro do Solha. Conhecimento enciclopédico, poder de observação, erudição e imaginação estupenda. Dir-se-ia ser um longo poema talvez um pouco hermético, mas tão bem estruturado e ritmado que a O João Carlos Taveira sintetizou muito bem a experiência de ler a “VIDA ABERTA” e a dificuldade em grande parte se dilui.

 

“da flecha ao míssil,

tudo segue,

difícil:

insuficiência

em tudo”

 

Um livro com um monte de referências que o enriquecem e até nos atordoam, mas, não sei porque, me remete aos repentistas nordestinos.

 

“se o que leio me bastasse

não escreveria.

por que o faria?”

 

E logo adiante uma espécie de suma poética, escatológica ou estudo das últimas coisas, mas que permeiam tudo desde a gênese do mundo, ao início de tudo, passando até pelo naufrágio do Titanic e temos afinal “a vida – triste e bela como enigma”

“e a terra...indo pro escuro,

sem o menor

futuro!”

 

Solha, não sei como classificar o teu livro, só sei que ele desestabiliza, deixa-nos meio tontos e embriagados das palavras. Como diz o próprio subtítulo: “Tratado Poético-Filosófico”.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 19 de maio de 2023

MALDITOS


 

“Que eu não me aproxime muito

do reino do sonho da morte

que eu possa vestir esses discretos disfarces

pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas

esta é a terra do morto

esta é a terra do cacto”.  T.S. ELIOT

 

      O romance “malditos” de Anderson Pires da Silva foi uma leitura que me pegou desde o início, até o fim.

      Com uma trama bem urdida, um ritmo ágil, constitui uma daquelas leituras que você não quer interromper logo, ansiando pelos seus desdobramentos. Este sem dúvida é um mérito do autor.

      Todos os personagens do romance são uns desajustados, assim como a nossa sociedade, portanto um retrato sem retoques do meio em que, infelizmente, vivemos.

      O clima de suspense perpassa toda a obra, como se fosse um roteiro.

      Há muitos diálogos no livro que vão conduzindo e desvendando a trama, num recurso bem empregado que confere agilidade ao texto.

      Aqui e ali, percebe-se que passou alguns erros de revisão, mas que não chegam a comprometer a compreensão da frase.

      O mesmo pode se dizer, talvez, de um uso meio exagerado de chavões, palavrões e estrangeirismos.

      Tendo como subtítulo “uma ficção gótica existencialista”, realmente possui pitadas do sobrenatural e de mistério que faz com que a gente simplesmente não consiga parar de ler, deixando o leitor totalmente preso.

      Enfim “malditos” é um daqueles livros que nos surpreendem e que eu recomendo aos leitores.

 


    

quarta-feira, 17 de maio de 2023

LAMENTOS


 

Jonas Pessoa, como se pode observar, escreve sobre a temática social, mas vista de dentro e não de fora como comumente é observada e descrita. O problema social geralmente é tratado em cima de dados estatísticos. Os governantes, todos eles, adoram fazer isso: apresentam cifras e números e ocultam o Ser, o lado humano do sofrer. Como aquele ditado que diz que “quem vê o doente não vê a doença da pessoa”.

Jonas Pessoa não faz isso, sua escrita espreita o lado de dentro, sob a perspectiva da doença, das chagas sociais cotidianamente pisadas por todos nós e nem sequer sujamos os sapatos das nossas consciências empedernidas, fechadas sobre si mesmas.

Pode-se argumentar que o registro meramente social e coletivo não seja matéria de poesia, mas a impressão que eu tive ao ler os originais de “Lamentos” é a de que o Jonas não está muito preocupado em fazer literatura e sim tentar desnudar a verdade escondida sob o tapete vermelho da hipocrisia.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO DO GONZALO DÁVILA BOLLIGER



Gonzalo, terminei de ler o seu livro "Rumo ao âmago da própria voz". muito interessante essa ligação com a música, o rock progressivo, principalmente. "eu passei a vida rascunhando gritos em uma sala de espelhos". legal isso. rei dos mortos e ao mesmo tempo um espantalho que se declara um artista. "o maior dos artistas" o que o leva a ser, por conseguinte, a ser o rei da tristeza. "-oh convidados, meus leitores/meus semelhantes, meus hipócritas, pupilos!!/não abandonem estes arabescos dourados,/eles irão se emaranhar como serpentes em teus crânios/e fazê-los sofrer como quem dentro-/do próprio túmulo em que houvesse nascido-/lesse o seu próprio epitáfio/. Você, Gonzalo, demonstra ter uma estupenda imaginação. neste teu livro eu observei características de Bob Dylan e Fernando Pessoa na pessoa do Álvaro de Campos, como no poema das páginas 115 e 116 - muito bom. a ressalva que eu faço é referente ao concretismo dos irmãos Campos, Augusto e Haroldo & Décio Pignatari que pretenderam decretar o fim do “ciclo histórico do verso” e, a meu ver, não obtiveram nada e isso só trunca a fluidez dos versos e da leitura.

mas a impressão geral que fica é a de um bom livro e de um bom autor. parabéns!!!


domingo, 14 de maio de 2023

FLORIR NO ESCURO


 

“aquela escuridão, que eu não me esqueça,

Era toda ela a noite mais espessa,

O mais espesso susto, o que não cessa

De espantar e arder, assombração.”

 

Lendo o livro do Chico Lopes, “Florir no Escuro” (Editora Penalux) eu percebi ou me dei conta de que eu estava no meio de uma “cantiga de ninar fantasmas”, tal as camadas de silêncio e fúria que perpassam os seus densos versos. De uma densidade memorialista. Poesia madura, de gente grande que mora na vizinha cidade de Poços de Caldas.

 

DUPLO

 

“Um demônio de ironia

Nunca me deixa, tranquilo,

Disciplinar meu fluir.

 

Sempre uma parte de mim

Ri a valer da outra parte

Que intenta me corrigir”.

 

Lá pelas tantas na leitura do livro deparo-me com o seguinte e expressivo verso: “poupa-me do açúcar do teu pus”

Destaco o poema “Horas a fio”, um dos mais fortes do livro, para uma leitura atenta e concentrada. Mas, sem dúvida, o poema que mais me impressionou é “mãe”. Contundente e belo.

E para finalizar essa leitura de um autor que eu não conhecia só posso recomendá-lo aos interessados em literatura da boa. Ficarei aguardando a leitura do “Caderno Provinciano”, cujo título já me pegou logo de cara e na essência.

 

 

 “e o relógio só dá hora

Para o mesmo velho encontro -     

O de mim com meus escombros”.   

sábado, 13 de maio de 2023

ENTREMEIOS


 

“Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo...

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo. ”

                        Mário de Andrade

 

Acabei de ler o romance EntreMeios, acho que por umas duas ou três vezes em uma única vez. Explico-me: foi uma leitura feita de idas e vindas. Recapitulações. Tentando lançar luzes sobre alguma passagem já anteriormente lida e não totalmente absorvida, e este foi um processo enriquecedor. Fiz com este livro uma leitura “sui generis”: antes de eu terminar eu recomeçava e lá pelas tantas iniciava tudo de novo, mas mantendo as pontas do início e do desfecho afinal cíclico.

Não quer dizer com isso que seja um livro de leitura difícil, mas requer perspicácia e a vontade de continuar lendo e continuar sorvendo tudo porque trata-se de uma prosa poética, ou melhor, verdadeira poesia em prosa – deliciosa e vermelha.

Saí deste livro de estreia com uma palavra formulada nos desvãos do meu cérebro já antigo e que ainda gosta de se expressar com palavras em desuso justamente quando requer e precisa de um termo forte para anunciar algo novo e inovador. Uma estreia deveras ALVISSAREIRA.

Há que se ressaltar neste livro, publicado pela Editora Reformatório, seu caráter bastante diferenciado e promissor, bem como enaltecer esta nova autora, Cassia Penteado, que publica seu primeiro romance e promete.

Literatura concisa, cheia de frases como laminas afiadas da faca de sashimi, “que permite um corte perfeito com um único golpe”. Lamina limpa antes de ser usada. Impressionante.

Dir-se-ia que é um romance duro, cruel, mas simultaneamente límpido e doce, como aquele personagem singelo que vai enrolando o seu cigarro de palha, nesta passagem da mais pura magia: “ele desembrulha um pedaço de tabaco torcido e enrolado em corda. Do bolso da calça fina de tergal cinza, ele traz o canivete de aço inox com detalhes em madrepérola; era ainda menino quando o herdara do avô. Com ele fere e descama o fumo que armazena na palma da mão, depois o despeja na folha de palha, enrola-a na superfície da ponta dos dedos, leva à boca aquela gaita de palha recheada de tabaco picado, lambe a borda da folha com a ponta da língua e, com a saliva, cola-a no corpo do cigarro, encerrando a obra”.

Procedimento simples e poético que contrasta com os muitos coágulos de sangue que virá antes e depois, em profusão. No cérebro emaranhado de traumas e pesadelos e culpas da personagem principal, ou seriam duas personagens mulheres? Ou apenas uma, a mesma? É preciso ler o Entremeios para saber.

Numa passagem inóspita e realista a personagem se questiona: “extirpar o útero de mulher que jamais parira? Sou chão batido em que a semente não germina, sou árvores maldita que não deu fruto, aguilhoada pela ardência da devassidão da infertilidade. O destino poupara-me a desgraça de gerar víboras, de ter, nas palmas, o enxerto fecundo de outra anomalia a perpetuar minha vileza. Jamais desejei reproduzir algo que não partisse de meu cérebro, dos meus sentidos, e a vida secou inopinadamente as minhas entranhas”.

Um romance feito de fendas e camuflagens e com a capa vermelha como glóbulos de sangue, muito sangue. Afinal havia um buril, sim um buril.

 


quinta-feira, 11 de maio de 2023

POEMA VOZES


Cristiano Durães, gostei do seu poema “Vozes”. São realmente muitas vozes, polifônicas. Talvez o nosso bardo ancestral devesse ter feito como você diz:  “Camões devia ter deixado os versos irem mar adentro”. Mas não o fez e então continuamos, hoje e sempre, lutando com as palavras nessa batalha inglória. Admirei muito a estrofe:

 

“...e tenho estado entregue ao nocaute

como quem reconhece no desmaio

a última oportunidade

de um sono tranquilo”.

 

Naquilo que me cabe do poema, realmente continuo ainda revirando (ou tentando revirar) “a terra da sepultura” até que se proceda o inverso e a terra seja jogada por cima de mim, aquela mesma terra que deixei amontoada num canto.

 


quarta-feira, 10 de maio de 2023

ARRAIA DE VIDRO, de Jonas Pessoa

 

                                        

O primeiro livro que li do Jonas Pessoa foi Lamentos, nos idos de 2017, alguns anos depois eu tenho diante dos meus olhos os originais de Arraia de Vidro e percebo agora uma nítida evolução do autor e permanece, como não poderia deixar de ser em se tratando de literatura, o mesmo e velho impasse. Se no livro anterior esse impasse se dava mais pelo caráter social, agora o dilaceramento do eu poético permeia toda a obra e não há uma possibilidade de redenção, sequer de congraçamento. É sempre o choque e o estampido.

Descer uma escada de costas parece ser razoável quando no cimo não há nada e as crianças morrem de “balas achadas” e não “balas perdidas”, pois acharam elas, as crianças, ao rés do chão.

Talvez a maior ironia do livro seja contrapor algumas alegrias da infância, como empinar papagaios de papel quando o ouvido se fecha aos ecos dos gritos das necessidades. O poeta parece sentir o baque da realidade cruel e busca, momentaneamente, instaurar o espaço do lúdico nos fios frágeis da infância.

Nas andanças do poeta Jonas o mesmo idílio se estabelece num lugar utópico de convergência do humano numa época extremamente distópica como esta em que vivemos.  Não está fácil e é preciso suportar e superar o entrechoque “mesmo que o fardo pese é preciso transpor, ruminando seus silêncios como quem está admirando os vitrais de uma catedral”.

Há neste livro do Jonas algumas belas imagens realistas que você pode ir pinçando aqui e acolá como lampejos sobre um mesmo ponto cego como se fossem “cantigas de ninar homens sem dentes”. Então, como se num sonho do impossível o poeta finaliza dizendo “a palavra é para mim a chave que destrava as algemas da língua e me liberta da prisão do silêncio”. Arraia de Vidro, é então um livro sobre silêncios e distâncias.

“Nenhuma palavra quebra-me a taciturnidade,/

construí o lar em cima do alicerce do silêncio,/

como não havia nada a dizer,/

fui edificando o exílio/

lá onde a luz está sempre apagada.”

 



sábado, 6 de maio de 2023

À FLOR DA PELE

 


O crítico e (é) o escritor – uma análise de “À flor da pele”, de Krishnamurti Góes dos Anjos

 

“O eixo do mundo gastou-se”. E esta frase, dita por um camponês iletrado da zona rural de Ervália, em Minas Gerais,  revela duas verdades: a primeira delas pela justeza do conceito que emite, tão sintetizado que chega a doer. Definitivamente o eixo do mundo encontra-se gasto, desgastado e ele agora, o mundo, gira louco, em descompasso e sem propósito de existir.

A segunda verdade é a de que não precisamos de um conhecimento sistematizado, acadêmico, para fazer uma correta leitura do mundo. Basta a intuição com sua carga de sabedoria implícita demonstrada pelo Geraldinho, um lavrador incauto e descalço capinando a sua lavoura de café no interior de Minas Gerais.

“come chocolates pequena,/ come chocolates!/ olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”/, como já dizia o grande Fernando Pessoa.

Este pensamento surge numa época de distopias brilhantes, de um brilho opaco, em que a vida surge ofuscada pela nossa incapacidade de interpretação. Nunca o “the dream is over” anunciado por John Lennon no final dos anos de 1970 foi tão pertinente como agora: o sonho acabou. Mesmo!

O livro de contos “À flor da pele” (Editora Laranja  Original, 2020), de Krishnamurti surge num fatídico ano, marcado por uma pandemia, uma crise econômica e uma crise política causada por um desgoverno nefasto sob todos os aspectos, mas que foi escolhido por nós, brasileiros, em nossa falta de opção.

“À flor da pele” aparece num momento conturbado como este para funcionar como um contraponto e sua leitura serviu para quebrar alguns paradigmas disseminados genericamente pelo senso comum no sentido de que um bom crítico literário não seria, por definição, um bom escritor ou até mesmo o julgamento pernicioso de que os críticos de literatura são, igualmente por definição, autores frustrados que,  não dando conta de escrever grandes obras de ficção, passam a ser críticos literários; podendo ser muito competentes no que fazem ao desempenhar tão nobre e necessária função.

Esses conceitos vagos e sem fundamentos foram meio que disseminados e de certa forma aceitos como uma regra geral. Mas não é, definitivamente, o caso do Krishnamurti. E este seu livro de contos vem agora justamente para comprovar este grande equívoco, ao afirmar que se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo e com qualidade.

Krishnamurti Góes dos Anjos com este seu “À flor da pele”, prova-nos que é possível ser um ótimo crítico literário ao mesmo tempo que desenvolve uma literatura de criação e de qualidade. O autor em questão tem se destacado como um dos nossos melhores e mais profícuos críticos de literatura e respeitável resenhista, desenvolvendo um trabalho muito importante de disseminação do gosto pela leitura ao privilegiar sobretudo a literatura contemporânea de autores novos e emergentes no cenário literário nacional.

O escritor Krishnamurti, com suas múltiplas resenhas, faz exatamente esta ponte entre os autores e os prováveis e eventuais leitores, tornando a leitura algo fascinante. O seu brilhante “À flor da pele” é um livro de contos em que se confirma esta grata surpresa de se encontrar no crítico renomado um autor de muitos recursos e versado numa prosa literária de excelente fruição e encantamento.

Os contos são bem urdidos e transcorrem numa leitura agradável ao mesmo tempo em que subliminarmente, nos leva a muitas e diferentes reflexões. ”Highly Important! Revolution in Brazil!”, que abre o seu volume de contos narra uma pretendida “Revolução no Brasil”, com uma deliciosa narrativa histórica sobre uma utópica independência de Pernambuco nos idos de 1817. Parece, no entanto, ser uma leitura atualizada do que somos ainda hoje, neste referencial projetado de um Brasil do Século XXI. Quase nada mudou desde sempre.

Em “Dois velhos ou quase velhos” Krishnamurti Góes dos Anjos nos apresenta um diálogo telefônico  entre dois amigos já velhos, ou quase velhos. Um mais expansivo e o outro, retraído. Esse diálogo (ou pode-se mesmo dizer um quase monólogo) transcorre mais com o expansivo falando e narrando as peripécias de um encontro fortuito que ele teve com uma mulher jovem, “um avião”, numa viagem de metrô. A ideia do expansivo era convidar o amigo retraído para tomarem uma cerveja no bar “Lanterna dos Afogados” e conversarem, mas, diante da recusa desanimada do amigo a conversa, toda ela, se dá ao telefone mesmo. Então ele foi narrando seus dissabores a partir daquele encontro providencial e meio acachapante numa linha de metrô. O que aconteceu ou deixou de acontecer era o que se pode esperar de uma conversa entre a juventude radiante e a decrepitude galopante de um velho ou quase  velho; daí entendemos como os mais velhos quase sempre se ressentem com os mais jovens, naquilo que se convencionou chamar de choque de gerações: colocando os mais jovens numa escala ascendente de jovialidade contra outro, decadente, numa escala decrescente de aniquilamento. E logo ela, a moça bonita, para começo de conversa o chama de tio e isso o destrói e corrói pela carga de verdade que encerra. E ele, um viúvo solitário, perde ali as suas ilusões afetivas e sexuais e se descobre pobre num país cheios de mazelas políticas e econômicas. Então o expansivo estava fragilizado e queria, conversando com o amigo, algo de reconfortante entre iguais em idade, mas, diante da recusa do outro em sair (também ele um solitário e subempregado, sem dinheiro e meio deprimido). A recusa do amigo mais a súbita consciência de sua decrepitude que chegava aos galopes levaram o expansivo, já agora amargo como um limão, a encerrar subitamente a conversa telefônica dizendo: -- “vou sozinho sim e não quero mais falar, não quero ouvir mais nada de você. A vida é mesmo um absurdo e eu vou ficar sentado à mesa com minha cerveja no bar ‘Lanterna dos Afogados’. Quero apenas isso e é o que me resta, ficar sozinho, sentado  num bar tomando cerveja. Tchau!” Dez minutos depois que ele chegara ao bar, aquela moça radiante do metrô liga para um taxista pedindo que a levasse, numa corrida, ao bar de sempre, no “Lanterna dos Afogados” onde ela mantinha suas conversas juvenis e seus encontros (amorosos?) com os homens.

O conto “O Casamento” narra uma história de desencontros. Pode parecer uma contradição, pois casamento pressupõe união, congraçamento, festividades. Mas aqui não. O autor Krishnamurti narra uma cerimônia de casamento em que os convivas parecem deslocados. O personagem central é um senhor de meia idade que mora em outra cidade e o seu motorista já está esperando para voltarem. Ele então adentra o recinto aparentemente sem conhecer ninguém e aguarda o casamento. A noiva se atrasa, é praxe, então ele foi conduzido pelo cerimonial para um formação de casais numa fila de padrinhos. Dão-lhe um par e ela enlaça o seu braço, mas não há sintonia entre eles. Logo ela cede o lugar para outra moça, Mara, que parece ter se interessado pelo senhor grisalho e vice-versa. Nisso o noivo aproximou-se dele. O terno o incomodava, pois não estava acostumado a esse tipo de roupa. O noivo então dá-lhe um abraço tipo quebra-ossos e diz: “estou muito feliz que tenha vindo. Sabe?” Sorriram afetuosamente, mas foram interrompidos pela mestra de cerimônias. Logo chega um senhor, espaçoso, e se anuncia como o pai do noivo, depois acrescentando ser o pai adotivo. Isso gera uma pergunta entre os convivas: e cadê o pai verdadeiro, não veio?  A cerimônia começa e este homem se divide entre a vontade de ficar e continuar na companhia de Mara ou voltar, pois o tempo urge, o casamento atrasou e o motorista o espera com hora previamente marcada. “A gravata apertava como a corda de um enforcado” e ainda mais a preocupação com o horário. Falou com a Mara que morava em outro estado, cinco horas de viagem, com hora marcada de voltar e que ela explicasse ao noivo a sua ausência na festa. Hora de voltar e sair do casório,  com ele pesaroso por deixar aquela agradável companhia. Despedem-se enternecidos. Corte! e o autor da narrativa já nos coloca na casa, no quarto do homem convidado que chegando em sua casa vê e pega um porta-retratos. Nele a fotografia do homem que se casou hoje, quando tinha quatro anos. E então fica pensando: “os olhos dele me pareceram um pouco mais escuros que no dia em que ele saiu da sala de parto”.

O ótimo conto “Enfermaria do Hospital Geral” confirma-se a impressão de que a literatura tem, de fato, este poder de resgate sobre a condição humana e sua transitoriedade evidenciada num leito de U.T.I, numa enfermaria de um hospital geral que bem pode ser a alegoria do nosso próprio país, num mundo em dissolução.

Mais adiante, ainda somos surpreendidos com o excelente (e belíssimo) conto “Samírah e a Noite dos Longos Punhais” em que a sensibilidade e engenho do autor nos transporta para a cena dantesca da morte por afogamento do menino sírio Aylan que chocou o mundo inteiro ao aparecer estirado na praia, numa triste saga de refugiados ao redor do planeta  à procura de um lugar para viver em busca de paz. Um relato que eu diria poético e carregado de humana beleza mesmo em se tratando de uma tragédia, pois existe poesia mesmo em meio a toda a destruição ocasionada por uma guerra fratricida em que o horror é tamanho que “os nossos olhos são pequenos para ver”, no admirável poema de Carlos Drummond de Andrade.

Dito isto é fechar o livro sensibilizado e sempre atento ao papel catártico que a literatura pode nos proporcionar, ainda que pese o imenso peso da nossa condição humana.

“era o corpo de um menino vestido com camisa de malha vermelha, calça azul-marinho e tênis marrom, deitado de bruços na praia. Era Aylan.”