“não
evoque ninguém que não possa mandar de volta”
H.P.
Lovecraft
Lembranças.
Isso era tudo que eu tinha no momento. Para além da minha percepção havia só o
silêncio. E sempre foi assim, quebrá-lo seria estabelecer um distanciamento.
Qualquer objetivo aproximado gera um estranhamento. Lembro-me de ter praticado
tiro ao alvo numa velha porta de madeira assinalada com círculos de carvão.
Cheguei a desenvolver uma certa pontaria até ler o romance “O Retrato de Dorian
Gray”, de Oscar Wilde. Foi quando percebi que o alvo atingido era eu: o meu
duplo, a minha própria imagem refletida num espelho. Uma pintura imaginária que
era uma representação de mim, para além de qualquer moldura que representasse
uma normalidade objetiva. E segui em frente, com um revólver de brinquedo
amarrado na cintura e imaginando que eu era uma espécie de super-herói juvenil
– xerife vestido de marrom. Quando me dei conta do meu sonho e acordei, estava
encurralado.
A máscara
da morte flutua e a agonia do doente se intensifica na cama. O obituário já foi
preparado há dias, como medida de precaução. Porém a morte, caprichosa, ameaça
vir, recua, avança, parece que vai dar meia-volta e sair, mas retorna e solta
no ar indícios de definição. O paciente, sem alternativa, espera com a
paciência de um ser reduzido a nada – e estertora. A morte nunca vai embora.
Existe um ditado na minha terra segundo o qual o doente quando muda de
cabeceira é pra pior. Naquela madrugada fria as enfermeiras chegaram e
removeram o paciente para outro quarto no final do corredor. A morte,
disfarçada em brancos lençóis, seguiu com eles na maca. Fiquei olhando uma
lagartixa transparente na vidraça. Logo depois veio a notícia: havia falecido.
Atualmente a tragédia da
morte foi diluída, mas não totalmente dissolvida. Há um intervalo entre a
madrugada do velório e o enterro na manhã seguinte (geralmente prevalece o
costume antigo e o sepultamento ocorre 24 horas após a morte), num momento
intermediário em que todos deixam a sala e vão para a cozinha apreciar as
quitandas e contar os casos acontecidos e imaginados. É quando o vento sopra e
costuma apagar as velas dos candelabros. O defunto, pressentindo o abandono,
parece desejar sair dali e poder retornar como os outros para o “aconchego do
lar”. Uma anedota comumente contada nos velórios é a de que, numa certa altura,
a dona da casa convida os presentes para irem até a cozinha tomar café. Nesse
momento, o cadáver senta no caixão e exclama: “Se tiver bem quente também quero
um gole”. Para todos que frequentam velórios e permanecem ali, apesar dos
exageros, é preciso vivenciar para poder dizer. O certo é que algumas coisas
acontecem: a temperatura cai, o consumo de álcool aumenta e algumas fantasias têm
lugar. As portas e janelas batem de uma só vez com toda a força e, de repente,
tem uma mulher ali do seu lado, com uma cara estranha e amigável. Só que essa
mulher faleceu a exatos dezessete anos...
Folheando
um livro com acervos de arte tumular eu imaginava coisas mórbidas e sentia
calafrios. As janelas estavam abertas, mas os arrepios de frio que se sentia
ali eram de uma espécie meio sobrenatural. Carruagens fúnebres transportavam
fantasmas com seu séquito de almas penadas. Lembrei-me da história do carro de boi
construído em madeira de bálsamo, especialmente para transportar cadáveres de
escravos e depois que aquele cemitério foi desativado, o carro foi jogado no
fundo do leito do rio e ainda hoje está lá e pode ser visto quase que intacto
na época da seca, quando o nível das águas encontra-se abaixo do normal.
Gostaria de
conhecer o “Estatuto das 12 Tábuas” que rege o trabalho das carpideiras e que é
usado para coibir a histeria, pois era inusitada a minha obsessão em localizar
aquele antigo cemitério abandonado às margens da estrada. Eu não possuía
nenhuma referência além de saber que contornava uma curva onde havia muitas
pedras. Ora, com o passar dos anos, o leito daquela estrada secundária já
deveria ter-se deslocado em muitos metros e quase já não era mais utilizada
desde que o cemitério de escravos fora desativado. E o que eu via agora eram
dezenas de pedras disseminadas ao longo do caminho, e não havia mapas. Adormeci
e devo ter sonhado que encontrei o tal cemitério, pois eu via cruzes para todos
os lados. Meu Deus, eram mais de duzentas! Assim que o surto da peste foi
anunciado, os coveiros trabalhavam em escala de revezamento. Previa-se uma
mortandade coletiva e simultânea. Eu estava numa padaria quando soube da
notícia e nunca imaginara a morte assim em larga escala: mas ali estavam as
valas cavadas e prontas para receber todos aqueles que foram pegos na contramão
do itinerário e estavam agora obstruindo o fluxo de tráfego da humanidade. As
marcas e as lembranças do passado são residuais, mas às vezes elas voltam.
Seis carpideiras foram
contratadas para o velório daquele autor de novelas. E o choro delas e suas
lamúrias cadenciadas reforçaram o luto. Tinha sido tudo muito rápido e não
houve tempo para a extrema-unção. No necrológio feito de improviso foi
assinalado que o trabalho do artista era, em última instância, uma tentativa de
burlar a morte. Mas nem tudo eram flores por ali, afinal aquele homem havia
cometido suicídio numa manhã de sol. Alguém sugeriu cortar a sua mão esquerda e
enterrá-la de parte para que, eventualmente em outras vidas, ele deixasse de
escrever bobagens. Fez-se um silêncio e o cortejo subiu as escadas em direção à
sua última morada. Vermes necrófagos espreitavam e uma semana depois foi
colocado sobre o seu túmulo um pequeno retrato oval e esmaltado, circundado por
uma moldura de mármore frisado.
Na beira de
um brejo encharcado de água enferrujada, coberto por aquela vegetação conhecida
como taboa, eu ouvi falar certa vez da existência de um eremita. Vivia numa
casa abandonada, com símbolos desenhados em vermelho nas paredes em ruínas.
Faltavam algumas portas e janelas e pude olhar de longe, quando ele não se
encontrava. Havia um fogão de barro e muita teia de aranha. A personagem era
real, mas virou lenda contraditória através de relatos desencontrados e
intercalados de fantasias. Não importa. Há muitos anos viveu aqui esse homem
tido como louco, ou teria sido um alquimista? Talvez fosse um daqueles
primitivos vampiros de almas, como são hoje quase todas as mulheres bonitas.
Dispensam o sangue, pois sugam as energias. Ou pode ter sido simplesmente um
andarilho que encontrou na casa vazia um arremedo de lar e entrou à procura de
um prato de comida. Dormiu e sonhou deitado sobre uma pedra suja cercada de
frascos quebrados e o tropel dos cavalos. O sol estava quente e derretia os
miolos da gente. Talvez tenha sido apenas isso: uma insolação.
Às vezes a gente se desespera em função talvez do excesso
de mágoas acumuladas em noites e dias de decepções contínuas. O aprendizado do
convívio é uma balela e a novidade se estrangula logo nas primeiras esquinas.
Velas acesas nos morros são ilusões moribundas e a morte se apresenta sob a
forma do mais terrível abandono. Se não fosse a música para intercalar, a vida
estaria submersa e o pântano seria a nossa morada definitiva. Seres amorfos
moldados por legiões de vermes sob uma epiderme sem causa. Pensava nisso e
forças ocultas guiavam os meus passos enquanto eu descia ladeira abaixo,
trocando as pernas, já próximo da meia-noite. O amor precisava ser novamente
exorcizado.
Os dedos das minhas mãos mais pareciam garras no instante
em que eu tentava escalar o muro alto do cemitério. Era noite e eu estava só
com os meus propósitos de escavação. Na queda do outro lado torci o pé direito,
mas segui em frente por entre as catacumbas. Levava uma pequena lanterna de
bolso e com ela iluminava as caras dos anjos. Na véspera eu já havia observado
o cemitério e acompanhado a rotina e o trabalho do coveiro. Sabia, portanto,
onde ele guardava as ferramentas e sabia também que não existia nenhum vigia
noturno. Minhas unhas sangravam e meu coração batia descompassado. Eu precisava
resgatar de novo aquele corpo que eu mesmo enterrara ali, após uma difícil e
dolorosa cerimônia de adeus. Mas eu não conseguia nunca manter as minhas
resoluções de ruptura e estava ali de novo, arrastando a minha incongruência.
Era inevitável. A história de nossas vidas parecia uma colcha de retalhos,
coberta de idas e vindas. Cheguei ao local desolado onde a grama seca do
esquecimento já começava a brotar. Peguei a pá e logo na minha primeira
investida contra o chão duro ecoou um barulho de lata que despertou a matilha
de enormes cães do diabo que eram os guardiões do lugar. Corri, tropecei e
acordei na minha cama encharcado de suor, pois a febre já devia estar cedendo
sob os efeitos dos remédios. E então aquele pesadelo repetitivo, obsedante, já
de vários dias, não deveria acontecer novamente. Pelo menos era o que eu
esperava enquanto lavava meu rosto na água fria, e chorava.
No
limiar estreito e complexo da passagem de uma para outra situação de vida, nos
processos de mudança – inclusive os de natureza geográfica – algo ali se deu,
embora novamente isso seja difícil de mensurar ou compreender. Após tantos
anos, o que procuramos fazer é montar um pequeno mosaico de nossas recordações
fragmentárias e não sucumbir pela ausência total de interpretações. Talvez
estejamos apenas elaborando outros enredos para as situações vividas, mas isso
não importa. O que fica e se procura perpetuar serão sempre as associações
possíveis do fato originário. Então eu me vejo subindo uma rua muito íngreme,
na companhia do meu pai (ou ele se fazia acompanhar de mim) para um pequeno
Centro Espírita ou de Umbanda, eu não sei, mas fosse o que fosse era uma
novidade para nós. Alguém lhe dera o endereço e a recomendação, mas eu só sei
que de acompanhante virei alvo e o cara lá que comandava o ritual ou a
cerimônia (não sei qual seja o nome que o designaria) disse literalmente que
“eu tinha uma dúvida”. Não sei o que significa isso, mas deve conter alguma
verdade, pois a sequência da minha vida só fez confirmar essa predição,
acrescentando outras e ainda maiores “dúvidas”, num dilaceramento constante e
sem respostas. Nunca pude equacionar a minha vida e aí me vem, excetuando as
análises científicas, todo um repertório de coisas antigas e mal elucidadas
como um mau-olhado, predisposições ancestrais para a loucura e outras tantas
dessimetrias rurais advindas da observação dos comportamentos dos outros: fumar
um cigarro de palha até o limite da boca desdentada e nunca se queimar, pisar o
chão descalço, contar casos, existir naquele dia e amanhecer soberano. Acho que
nunca dei conta de nada disso e me sepulto na narração.
Adoro
a denominação de certos estados de espírito e eu estava num deles naquele dia:
Neurastênico! E saí então caminhando na tentativa de dissipar, perto de um
local abandonado onde hipoteticamente havia sido um antigo cemitério. Encontrei
um mapa não muito confiável e seguia por ele como se andasse atrás de algum
tesouro. Estava cansado de errar pela vida e de topar sempre pelo caminho com
muitos ossos, cinzas e engrenagens. Pisava, inadvertidamente, sobre restos de
crânios esmagados, pedaços de tíbias e antebraços – tudo quebrado,
desarticulado e jogado a esmo no meio do mato. E pensar que eu estava, naquele
momento de irritação com o destino, deslizando entre os despojos dos meus
antepassados. Uma sirene tocou perto de um colégio, olhei para o relógio e
retomei a estrada larga onde o fluxo era variado e intermitente.
A
velhice geralmente constitui a antessala da morte. E esse binômio
finitude/decrepitude nos assusta como medos ancestrais já incorporados e
consolidados. Muitos tentam fugir disso e o mercado está repleto de
“alternativas” para os mais afoitos e endinheirados. Nos últimos meses a minha
barba deu de branquear de repente e algumas pessoas começaram a chamar-me de
senhor. Assustei-me, olhei o calendário: 45 anos, e já perdia o privilégio de
ser chamado de você. O cúmulo se deu num dia em que, entrando num ônibus,
alguém me cedeu o lugar. Senti uma mistura incômoda de indignação e tristeza –
então eu já estaria bastante velho a ponto de receber favores? Nunca pretendi e
nem pretendo usar artifícios para tentar esconder a idade, mas naquele dia
resolvi ir ao barbeiro para aparar a barba e ver se melhorava alguma coisa. Não
adiantou nada, pois a raiz branca dos pelos já aflorava da pele e era inútil
lutar ou tentar esconder a realidade: eu estava mesmo ficando velho.
Aconteceu,
no entanto, que enquanto eu aguardava a minha vez, resolvi folhear algumas
revistas como é procedimento corrente nos consultórios médicos, em que a doença
instalada (mas ainda não diagnosticada) se apraz em ver fotos magníficas de um
mundo do qual já se despede. Mas aquela revista que eu peguei ao acaso para
folhear trazia uma matéria de capa sobre a morte. Achei interessante, pois eu
estava justamente escrevendo sobre o assunto. Não deu tempo de ler a
reportagem, mas o barbeiro, ao saber do meu interesse, deu-me a revista e eis a
sua síntese: crematórios cheios de efeitos especiais, salas de velório com
suítes, maquiagens no cadáver que escondem até marcas de bala, cremações
high-tech e ecológicas, urnas para casais e rabecões de luxo. As funerárias
modernas oferecem tudo isso e ainda mais, como bufê de comidas em salas vip e
transmissão do velório ao vivo pela internet. Então eu pensei: que delícia que
é poder acompanhar a morte dos outros assim! E não era só isso não, o serviço
completo abrangia ainda sessão de tanatopraxia, que tira o aspecto cadavérico
do corpo; cápsulas para guardar o material genético do defunto e um kit de
necromaquiagem. Fiquei meio zonzo com aquilo e fui embora, com uma sensação de
vazio. As fotos que ilustravam a matéria davam a ideia de um motel de luxo.
Criam todo um cenário e depois reclamam da incidência.
Entrei
no meu escritório e num canto, debaixo da escada de madeira, ficava o depósito.
Abri a portinhola e lá estavam a ampulheta, o relógio de bolso, a foice e a
enxada de coveiro. Eu guardava aquilo tudo como uma espécie de amuletos. Se o
cemitério representava um lugar de apodrecimento seus nichos deveriam conter
muitas caveiras, enquanto os ataúdes depositados diretamente nos “sete palmos
debaixo da terra” eram constantemente exumados e substituídos por outros – com
as águas das chuvas e o limo gotejando sobre o verniz recente – num ciclo
catastrófico de sarcomas e sarcófagos. Seria preciso reter uma imagem qualquer
de continuidade, mas o abandono e a má conservação da maioria dos cemitérios
não ajudava em nada nesse propósito.
Uma
vez eu cismei de entrar em contato com as almas do outro mundo. Eu tinha um
velho aparelho de gravação e reprodução dos sons e esperava, mediante evocações
específicas, obter alguma resposta sonora aos meus chamamentos. Não consegui
registrar nenhuma voz vinda dos mortos e desisti logo após a primeira
tentativa. Em todo caso eu me julgava aparelhado para me defender se fosse
necessário: sacos de sal, vidros de água-benta, estacas de madeira, cruzes,
punhais de prata e barras de ferro enferrujado. Tudo talvez inócuo quando se
trata de tentar impedir algum destino. Isso me faz lembrar que em tempos
remotos, em antigos necrotérios da Europa, os braços dos mortos-vivos podiam
tocar uma campainha próxima aos seus corpos, caso eles voltassem à vida. Victor
Frankenstein encontraria ali toda a matéria-prima de que necessitava para
esculpir o seu monstro de carne e eletricidade. Relatos de morte aparente
povoam o folclore e a literatura: “cadáveres que sangram, mordem a si mesmos,
transpiram, defecam no caixão; e nos quais continuam a crescer barba, cabelos,
unhas e dentes”. São bastante comuns também os casos de premonição e de
telepatia. Quase todas as famílias sabem de alguma história semelhante a sonhos
terríveis que ocorrem sempre em determinadas horas da noite e sabe-se que, em
seguida, naquele exato momento, um ente querido morreu, ou quase morreu, sofreu
um acidente de carro, etc. Algumas vezes a pessoa recém-falecida aparece em
diferentes pontos geográficos, simultaneamente, e para diversas pessoas que ainda
não haviam recebido a notícia da sua morte. Avisos, presságios, intuição
talvez, e eu aqui olhando para alguns retratos.
A
Fonte da Juventude deve estar por aí, em algum lugar qualquer onde não exista
nada com a mínima aparência de senilidade, de decrepitude, de degenerescência.
É difícil para o homem confrontar o vazio e a ausência de perspectivas. Há que
se organizar então expedições utópicas na busca do Elixir da Longa Vida, da
mesma forma que os antigos alquimistas procuravam pela Pedra Filosofal; que
teria poderes mágicos de transformar metais em ouro puro e resplandecente. O
sentido da vida, pela sua falta de sentido, acaba sendo o sentido de uma
procura permanente. Não importa que seja por amor, compreensão ou até mesmo
pela Galinha dos Ovos de Ouro – e por que não? Vai que ela exista em alguma
parte... Importa, pois, procurar e assim acabamos sendo eternamente uma espécie
de escoteiros-mirins dos nossos sonhos de infância. Quem poderá dizer que as
ilusões não sejam o verdadeiro significado da vida?
Depois
do enterro a família se retirou em dor, amparando-se, e só permaneceu no
cemitério a figura sinistra daquele zelador de túmulos. Eu não tinha,
propriamente, medo de defunto, mas andava cismado com os estigmas que a morte
poderia ter impregnado naqueles homens que exerciam por muito tempo o “último
dos ofícios”. Aproximei-me e conversamos bastante sobre a hora da morte e sobre
o trabalho dele que era, atualmente, mais uma função de pedreiro e de
jardinagem. Falou do que sabia – e do que havia feito antes – sobre as câmaras
mortuárias, o translado dos cadáveres e a remoção dos corpos. Disse que já
tinha sido um preparador de cadáveres para o sepultamento e que era preciso
saber o tempo máximo de exposição de cada corpo, que variava de acordo com a causa
da morte. Perto de nós, encostada num muro caiado, estava uma coroa de latão
respingada de barro.
Faltavam
48 horas para o Dia das Bruxas e eu estava fascinado por todas aquelas Lendas
Urbanas que eu havia recentemente pesquisado. O ciclo maligno, agora estendido,
apontava para seiscentos anos de interstício, e estava próximo. Na fábrica
abandonada tudo era sombrio e a casa das máquinas estava impregnada daqueles
símbolos bizarros que eu não compreendia. A pequena lanterna tremulava de medo
diante dos maus espíritos pressentidos no local – ou tudo não passava de
crendices e superstições do além túmulo? Não quis ficar para conferir o
desfecho, mesmo porque eu vislumbrei numa fresta da parede um pequeno pacote
escuro parecido com aqueles sacos de feitiço que eu vira na t.v.
Logo
depois eu já estava num ônibus quando ela entrou disfarçada de fantasma. Uma
moeda caiu e eu abaixei para apanhá-la. Sentei no canto e esperava que ela
viesse sentar-se na beirada, ao meu lado, mas ela deu de querer sentar na
poltrona logo atrás de mim, com o intuito de evitar qualquer coisa que já
estava meio muito, sem que acontecesse. Imaginava coisas verdadeiras e outras
falsas e disse-me que estava acompanhada. Um gato preto olhava de soslaio pelo
vidro da janela enquanto ela apeava e mais uma vez a porta se fechou num
mecanismo automático, e eu permanecia do outro lado.
Uma
palavra final sobre a importância dos cemitérios e de sua arte tumular – ela
não se mede, unicamente, por sua riqueza e imponência material. Este é, sem
dúvida, um elemento de análise, mas existem outros, subjetivos e não menos
importantes – uma cova rasa, num túmulo sem lápide pode guardar as lembranças
daqueles que mais amamos na vida. Túmulos desconhecidos, abandonados entre
pedras, na beira das rodovias e estradas, cemitérios de índios e de escravos e
até mesmo de animais de estimação; devem ser considerados. Mesmo porque, na
magia dos antigos, reside a ideologia de que neles, parafraseando Pero Vaz de
Caminha, “em se plantando tudo dá”. Alguns cemitérios carregam a crença de que
podem “ressuscitar” os seus mortos, e eu não duvido.
E quem sabe até se Deus...
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Milton Rezende, trecho extraído do livro “A Magia e
a Arte dos Cemitérios”, 2014, cujos direitos eu detenho.
