sexta-feira, 10 de abril de 2026

DE VOLTA AO VELHO TEMA - NOVAS SEQUENCIAS


 

“não evoque ninguém que não possa mandar de volta”

H.P. Lovecraft

 

 

Lembranças. Isso era tudo que eu tinha no momento. Para além da minha percepção havia só o silêncio. E sempre foi assim, quebrá-lo seria estabelecer um distanciamento. Qualquer objetivo aproximado gera um estranhamento. Lembro-me de ter praticado tiro ao alvo numa velha porta de madeira assinalada com círculos de carvão. Cheguei a desenvolver uma certa pontaria até ler o romance “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Foi quando percebi que o alvo atingido era eu: o meu duplo, a minha própria imagem refletida num espelho. Uma pintura imaginária que era uma representação de mim, para além de qualquer moldura que representasse uma normalidade objetiva. E segui em frente, com um revólver de brinquedo amarrado na cintura e imaginando que eu era uma espécie de super-herói juvenil – xerife vestido de marrom. Quando me dei conta do meu sonho e acordei, estava encurralado.

A máscara da morte flutua e a agonia do doente se intensifica na cama. O obituário já foi preparado há dias, como medida de precaução. Porém a morte, caprichosa, ameaça vir, recua, avança, parece que vai dar meia-volta e sair, mas retorna e solta no ar indícios de definição. O paciente, sem alternativa, espera com a paciência de um ser reduzido a nada – e estertora. A morte nunca vai embora. Existe um ditado na minha terra segundo o qual o doente quando muda de cabeceira é pra pior. Naquela madrugada fria as enfermeiras chegaram e removeram o paciente para outro quarto no final do corredor. A morte, disfarçada em brancos lençóis, seguiu com eles na maca. Fiquei olhando uma lagartixa transparente na vidraça. Logo depois veio a notícia: havia falecido.

Atualmente a tragédia da morte foi diluída, mas não totalmente dissolvida. Há um intervalo entre a madrugada do velório e o enterro na manhã seguinte (geralmente prevalece o costume antigo e o sepultamento ocorre 24 horas após a morte), num momento intermediário em que todos deixam a sala e vão para a cozinha apreciar as quitandas e contar os casos acontecidos e imaginados. É quando o vento sopra e costuma apagar as velas dos candelabros. O defunto, pressentindo o abandono, parece desejar sair dali e poder retornar como os outros para o “aconchego do lar”. Uma anedota comumente contada nos velórios é a de que, numa certa altura, a dona da casa convida os presentes para irem até a cozinha tomar café. Nesse momento, o cadáver senta no caixão e exclama: “Se tiver bem quente também quero um gole”. Para todos que frequentam velórios e permanecem ali, apesar dos exageros, é preciso vivenciar para poder dizer. O certo é que algumas coisas acontecem: a temperatura cai, o consumo de álcool aumenta e algumas fantasias têm lugar. As portas e janelas batem de uma só vez com toda a força e, de repente, tem uma mulher ali do seu lado, com uma cara estranha e amigável. Só que essa mulher faleceu a exatos dezessete anos...

Folheando um livro com acervos de arte tumular eu imaginava coisas mórbidas e sentia calafrios. As janelas estavam abertas, mas os arrepios de frio que se sentia ali eram de uma espécie meio sobrenatural. Carruagens fúnebres transportavam fantasmas com seu séquito de almas penadas. Lembrei-me da história do carro de boi construído em madeira de bálsamo, especialmente para transportar cadáveres de escravos e depois que aquele cemitério foi desativado, o carro foi jogado no fundo do leito do rio e ainda hoje está lá e pode ser visto quase que intacto na época da seca, quando o nível das águas encontra-se abaixo do normal.

Gostaria de conhecer o “Estatuto das 12 Tábuas” que rege o trabalho das carpideiras e que é usado para coibir a histeria, pois era inusitada a minha obsessão em localizar aquele antigo cemitério abandonado às margens da estrada. Eu não possuía nenhuma referência além de saber que contornava uma curva onde havia muitas pedras. Ora, com o passar dos anos, o leito daquela estrada secundária já deveria ter-se deslocado em muitos metros e quase já não era mais utilizada desde que o cemitério de escravos fora desativado. E o que eu via agora eram dezenas de pedras disseminadas ao longo do caminho, e não havia mapas. Adormeci e devo ter sonhado que encontrei o tal cemitério, pois eu via cruzes para todos os lados. Meu Deus, eram mais de duzentas! Assim que o surto da peste foi anunciado, os coveiros trabalhavam em escala de revezamento. Previa-se uma mortandade coletiva e simultânea. Eu estava numa padaria quando soube da notícia e nunca imaginara a morte assim em larga escala: mas ali estavam as valas cavadas e prontas para receber todos aqueles que foram pegos na contramão do itinerário e estavam agora obstruindo o fluxo de tráfego da humanidade. As marcas e as lembranças do passado são residuais, mas às vezes elas voltam.

Seis carpideiras foram contratadas para o velório daquele autor de novelas. E o choro delas e suas lamúrias cadenciadas reforçaram o luto. Tinha sido tudo muito rápido e não houve tempo para a extrema-unção. No necrológio feito de improviso foi assinalado que o trabalho do artista era, em última instância, uma tentativa de burlar a morte. Mas nem tudo eram flores por ali, afinal aquele homem havia cometido suicídio numa manhã de sol. Alguém sugeriu cortar a sua mão esquerda e enterrá-la de parte para que, eventualmente em outras vidas, ele deixasse de escrever bobagens. Fez-se um silêncio e o cortejo subiu as escadas em direção à sua última morada. Vermes necrófagos espreitavam e uma semana depois foi colocado sobre o seu túmulo um pequeno retrato oval e esmaltado, circundado por uma moldura de mármore frisado.

Na beira de um brejo encharcado de água enferrujada, coberto por aquela vegetação conhecida como taboa, eu ouvi falar certa vez da existência de um eremita. Vivia numa casa abandonada, com símbolos desenhados em vermelho nas paredes em ruínas. Faltavam algumas portas e janelas e pude olhar de longe, quando ele não se encontrava. Havia um fogão de barro e muita teia de aranha. A personagem era real, mas virou lenda contraditória através de relatos desencontrados e intercalados de fantasias. Não importa. Há muitos anos viveu aqui esse homem tido como louco, ou teria sido um alquimista? Talvez fosse um daqueles primitivos vampiros de almas, como são hoje quase todas as mulheres bonitas. Dispensam o sangue, pois sugam as energias. Ou pode ter sido simplesmente um andarilho que encontrou na casa vazia um arremedo de lar e entrou à procura de um prato de comida. Dormiu e sonhou deitado sobre uma pedra suja cercada de frascos quebrados e o tropel dos cavalos. O sol estava quente e derretia os miolos da gente. Talvez tenha sido apenas isso: uma insolação.

            Às vezes a gente se desespera em função talvez do excesso de mágoas acumuladas em noites e dias de decepções contínuas. O aprendizado do convívio é uma balela e a novidade se estrangula logo nas primeiras esquinas. Velas acesas nos morros são ilusões moribundas e a morte se apresenta sob a forma do mais terrível abandono. Se não fosse a música para intercalar, a vida estaria submersa e o pântano seria a nossa morada definitiva. Seres amorfos moldados por legiões de vermes sob uma epiderme sem causa. Pensava nisso e forças ocultas guiavam os meus passos enquanto eu descia ladeira abaixo, trocando as pernas, já próximo da meia-noite. O amor precisava ser novamente exorcizado.

            Os dedos das minhas mãos mais pareciam garras no instante em que eu tentava escalar o muro alto do cemitério. Era noite e eu estava só com os meus propósitos de escavação. Na queda do outro lado torci o pé direito, mas segui em frente por entre as catacumbas. Levava uma pequena lanterna de bolso e com ela iluminava as caras dos anjos. Na véspera eu já havia observado o cemitério e acompanhado a rotina e o trabalho do coveiro. Sabia, portanto, onde ele guardava as ferramentas e sabia também que não existia nenhum vigia noturno. Minhas unhas sangravam e meu coração batia descompassado. Eu precisava resgatar de novo aquele corpo que eu mesmo enterrara ali, após uma difícil e dolorosa cerimônia de adeus. Mas eu não conseguia nunca manter as minhas resoluções de ruptura e estava ali de novo, arrastando a minha incongruência. Era inevitável. A história de nossas vidas parecia uma colcha de retalhos, coberta de idas e vindas. Cheguei ao local desolado onde a grama seca do esquecimento já começava a brotar. Peguei a pá e logo na minha primeira investida contra o chão duro ecoou um barulho de lata que despertou a matilha de enormes cães do diabo que eram os guardiões do lugar. Corri, tropecei e acordei na minha cama encharcado de suor, pois a febre já devia estar cedendo sob os efeitos dos remédios. E então aquele pesadelo repetitivo, obsedante, já de vários dias, não deveria acontecer novamente. Pelo menos era o que eu esperava enquanto lavava meu rosto na água fria, e chorava.

            No limiar estreito e complexo da passagem de uma para outra situação de vida, nos processos de mudança – inclusive os de natureza geográfica – algo ali se deu, embora novamente isso seja difícil de mensurar ou compreender. Após tantos anos, o que procuramos fazer é montar um pequeno mosaico de nossas recordações fragmentárias e não sucumbir pela ausência total de interpretações. Talvez estejamos apenas elaborando outros enredos para as situações vividas, mas isso não importa. O que fica e se procura perpetuar serão sempre as associações possíveis do fato originário. Então eu me vejo subindo uma rua muito íngreme, na companhia do meu pai (ou ele se fazia acompanhar de mim) para um pequeno Centro Espírita ou de Umbanda, eu não sei, mas fosse o que fosse era uma novidade para nós. Alguém lhe dera o endereço e a recomendação, mas eu só sei que de acompanhante virei alvo e o cara lá que comandava o ritual ou a cerimônia (não sei qual seja o nome que o designaria) disse literalmente que “eu tinha uma dúvida”. Não sei o que significa isso, mas deve conter alguma verdade, pois a sequência da minha vida só fez confirmar essa predição, acrescentando outras e ainda maiores “dúvidas”, num dilaceramento constante e sem respostas. Nunca pude equacionar a minha vida e aí me vem, excetuando as análises científicas, todo um repertório de coisas antigas e mal elucidadas como um mau-olhado, predisposições ancestrais para a loucura e outras tantas dessimetrias rurais advindas da observação dos comportamentos dos outros: fumar um cigarro de palha até o limite da boca desdentada e nunca se queimar, pisar o chão descalço, contar casos, existir naquele dia e amanhecer soberano. Acho que nunca dei conta de nada disso e me sepulto na narração.

            Adoro a denominação de certos estados de espírito e eu estava num deles naquele dia: Neurastênico! E saí então caminhando na tentativa de dissipar, perto de um local abandonado onde hipoteticamente havia sido um antigo cemitério. Encontrei um mapa não muito confiável e seguia por ele como se andasse atrás de algum tesouro. Estava cansado de errar pela vida e de topar sempre pelo caminho com muitos ossos, cinzas e engrenagens. Pisava, inadvertidamente, sobre restos de crânios esmagados, pedaços de tíbias e antebraços – tudo quebrado, desarticulado e jogado a esmo no meio do mato. E pensar que eu estava, naquele momento de irritação com o destino, deslizando entre os despojos dos meus antepassados. Uma sirene tocou perto de um colégio, olhei para o relógio e retomei a estrada larga onde o fluxo era variado e intermitente.

            A velhice geralmente constitui a antessala da morte. E esse binômio finitude/decrepitude nos assusta como medos ancestrais já incorporados e consolidados. Muitos tentam fugir disso e o mercado está repleto de “alternativas” para os mais afoitos e endinheirados. Nos últimos meses a minha barba deu de branquear de repente e algumas pessoas começaram a chamar-me de senhor. Assustei-me, olhei o calendário: 45 anos, e já perdia o privilégio de ser chamado de você. O cúmulo se deu num dia em que, entrando num ônibus, alguém me cedeu o lugar. Senti uma mistura incômoda de indignação e tristeza – então eu já estaria bastante velho a ponto de receber favores? Nunca pretendi e nem pretendo usar artifícios para tentar esconder a idade, mas naquele dia resolvi ir ao barbeiro para aparar a barba e ver se melhorava alguma coisa. Não adiantou nada, pois a raiz branca dos pelos já aflorava da pele e era inútil lutar ou tentar esconder a realidade: eu estava mesmo ficando velho.

            Aconteceu, no entanto, que enquanto eu aguardava a minha vez, resolvi folhear algumas revistas como é procedimento corrente nos consultórios médicos, em que a doença instalada (mas ainda não diagnosticada) se apraz em ver fotos magníficas de um mundo do qual já se despede. Mas aquela revista que eu peguei ao acaso para folhear trazia uma matéria de capa sobre a morte. Achei interessante, pois eu estava justamente escrevendo sobre o assunto. Não deu tempo de ler a reportagem, mas o barbeiro, ao saber do meu interesse, deu-me a revista e eis a sua síntese: crematórios cheios de efeitos especiais, salas de velório com suítes, maquiagens no cadáver que escondem até marcas de bala, cremações high-tech e ecológicas, urnas para casais e rabecões de luxo. As funerárias modernas oferecem tudo isso e ainda mais, como bufê de comidas em salas vip e transmissão do velório ao vivo pela internet. Então eu pensei: que delícia que é poder acompanhar a morte dos outros assim! E não era só isso não, o serviço completo abrangia ainda sessão de tanatopraxia, que tira o aspecto cadavérico do corpo; cápsulas para guardar o material genético do defunto e um kit de necromaquiagem. Fiquei meio zonzo com aquilo e fui embora, com uma sensação de vazio. As fotos que ilustravam a matéria davam a ideia de um motel de luxo. Criam todo um cenário e depois reclamam da incidência.

            Entrei no meu escritório e num canto, debaixo da escada de madeira, ficava o depósito. Abri a portinhola e lá estavam a ampulheta, o relógio de bolso, a foice e a enxada de coveiro. Eu guardava aquilo tudo como uma espécie de amuletos. Se o cemitério representava um lugar de apodrecimento seus nichos deveriam conter muitas caveiras, enquanto os ataúdes depositados diretamente nos “sete palmos debaixo da terra” eram constantemente exumados e substituídos por outros – com as águas das chuvas e o limo gotejando sobre o verniz recente – num ciclo catastrófico de sarcomas e sarcófagos. Seria preciso reter uma imagem qualquer de continuidade, mas o abandono e a má conservação da maioria dos cemitérios não ajudava em nada nesse propósito.

            Uma vez eu cismei de entrar em contato com as almas do outro mundo. Eu tinha um velho aparelho de gravação e reprodução dos sons e esperava, mediante evocações específicas, obter alguma resposta sonora aos meus chamamentos. Não consegui registrar nenhuma voz vinda dos mortos e desisti logo após a primeira tentativa. Em todo caso eu me julgava aparelhado para me defender se fosse necessário: sacos de sal, vidros de água-benta, estacas de madeira, cruzes, punhais de prata e barras de ferro enferrujado. Tudo talvez inócuo quando se trata de tentar impedir algum destino. Isso me faz lembrar que em tempos remotos, em antigos necrotérios da Europa, os braços dos mortos-vivos podiam tocar uma campainha próxima aos seus corpos, caso eles voltassem à vida. Victor Frankenstein encontraria ali toda a matéria-prima de que necessitava para esculpir o seu monstro de carne e eletricidade. Relatos de morte aparente povoam o folclore e a literatura: “cadáveres que sangram, mordem a si mesmos, transpiram, defecam no caixão; e nos quais continuam a crescer barba, cabelos, unhas e dentes”. São bastante comuns também os casos de premonição e de telepatia. Quase todas as famílias sabem de alguma história semelhante a sonhos terríveis que ocorrem sempre em determinadas horas da noite e sabe-se que, em seguida, naquele exato momento, um ente querido morreu, ou quase morreu, sofreu um acidente de carro, etc. Algumas vezes a pessoa recém-falecida aparece em diferentes pontos geográficos, simultaneamente, e para diversas pessoas que ainda não haviam recebido a notícia da sua morte. Avisos, presságios, intuição talvez, e eu aqui olhando para alguns retratos.

            A Fonte da Juventude deve estar por aí, em algum lugar qualquer onde não exista nada com a mínima aparência de senilidade, de decrepitude, de degenerescência. É difícil para o homem confrontar o vazio e a ausência de perspectivas. Há que se organizar então expedições utópicas na busca do Elixir da Longa Vida, da mesma forma que os antigos alquimistas procuravam pela Pedra Filosofal; que teria poderes mágicos de transformar metais em ouro puro e resplandecente. O sentido da vida, pela sua falta de sentido, acaba sendo o sentido de uma procura permanente. Não importa que seja por amor, compreensão ou até mesmo pela Galinha dos Ovos de Ouro – e por que não? Vai que ela exista em alguma parte... Importa, pois, procurar e assim acabamos sendo eternamente uma espécie de escoteiros-mirins dos nossos sonhos de infância. Quem poderá dizer que as ilusões não sejam o verdadeiro significado da vida?

            Depois do enterro a família se retirou em dor, amparando-se, e só permaneceu no cemitério a figura sinistra daquele zelador de túmulos. Eu não tinha, propriamente, medo de defunto, mas andava cismado com os estigmas que a morte poderia ter impregnado naqueles homens que exerciam por muito tempo o “último dos ofícios”. Aproximei-me e conversamos bastante sobre a hora da morte e sobre o trabalho dele que era, atualmente, mais uma função de pedreiro e de jardinagem. Falou do que sabia – e do que havia feito antes – sobre as câmaras mortuárias, o translado dos cadáveres e a remoção dos corpos. Disse que já tinha sido um preparador de cadáveres para o sepultamento e que era preciso saber o tempo máximo de exposição de cada corpo, que variava de acordo com a causa da morte. Perto de nós, encostada num muro caiado, estava uma coroa de latão respingada de barro.

            Faltavam 48 horas para o Dia das Bruxas e eu estava fascinado por todas aquelas Lendas Urbanas que eu havia recentemente pesquisado. O ciclo maligno, agora estendido, apontava para seiscentos anos de interstício, e estava próximo. Na fábrica abandonada tudo era sombrio e a casa das máquinas estava impregnada daqueles símbolos bizarros que eu não compreendia. A pequena lanterna tremulava de medo diante dos maus espíritos pressentidos no local – ou tudo não passava de crendices e superstições do além túmulo? Não quis ficar para conferir o desfecho, mesmo porque eu vislumbrei numa fresta da parede um pequeno pacote escuro parecido com aqueles sacos de feitiço que eu vira na t.v.

            Logo depois eu já estava num ônibus quando ela entrou disfarçada de fantasma. Uma moeda caiu e eu abaixei para apanhá-la. Sentei no canto e esperava que ela viesse sentar-se na beirada, ao meu lado, mas ela deu de querer sentar na poltrona logo atrás de mim, com o intuito de evitar qualquer coisa que já estava meio muito, sem que acontecesse. Imaginava coisas verdadeiras e outras falsas e disse-me que estava acompanhada. Um gato preto olhava de soslaio pelo vidro da janela enquanto ela apeava e mais uma vez a porta se fechou num mecanismo automático, e eu permanecia do outro lado.

            Uma palavra final sobre a importância dos cemitérios e de sua arte tumular – ela não se mede, unicamente, por sua riqueza e imponência material. Este é, sem dúvida, um elemento de análise, mas existem outros, subjetivos e não menos importantes – uma cova rasa, num túmulo sem lápide pode guardar as lembranças daqueles que mais amamos na vida. Túmulos desconhecidos, abandonados entre pedras, na beira das rodovias e estradas, cemitérios de índios e de escravos e até mesmo de animais de estimação; devem ser considerados. Mesmo porque, na magia dos antigos, reside a ideologia de que neles, parafraseando Pero Vaz de Caminha, “em se plantando tudo dá”. Alguns cemitérios carregam a crença de que podem “ressuscitar” os seus mortos, e eu não duvido.

            E quem sabe até se Deus...

 

 

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Milton Rezende, trecho extraído do livro “A Magia e a Arte dos Cemitérios”, 2014, cujos direitos eu detenho.

                       

domingo, 8 de março de 2026

ENTREMEIOS


 

Por Milton Rezende

“Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo...

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.”

                        Mário de Andrade

 

Acabei de ler o romance EntreMeios, acho que por umas duas ou três vezes em uma única vez. Explico-me: foi uma leitura feita de idas e vindas. Recapitulações. Tentando lançar luzes sobre alguma passagem já anteriormente lida e não totalmente absorvida, e este foi um processo enriquecedor. Fiz com este livro uma leitura “sui generis”: antes de eu terminar eu recomeçava e lá pelas tantas iniciava tudo de novo, mas mantendo as pontas do início e do desfecho afinal cíclico.

Não quer dizer com isso que seja um livro de leitura difícil, mas requer perspicácia e a vontade de continuar lendo e continuar sorvendo tudo porque trata-se de uma prosa poética, ou melhor, verdadeira poesia em prosa – deliciosa e vermelha.

Saí deste livro de estreia com uma palavra formulada nos desvãos do meu cérebro já antigo e que ainda gosta de se expressar com palavras em desuso justamente quando requer e precisa de um termo forte para anunciar algo novo e inovador. Uma estreia deveras ALVISSAREIRA.

Há que se ressaltar neste livro, publicado pela Editora Reformatório, seu caráter bastante diferenciado e promissor, bem como enaltecer esta nova autora, Cassia Penteado, que publica seu primeiro romance e promete.

Literatura concisa, cheia de frases como lâminas afiadas da faca de sashimi, “que permite um corte perfeito com um único golpe”. Lâmina limpa antes de ser usada. Impressionante.

Dir-se-ia que é um romance duro, cruel, mas simultaneamente límpido e doce, como aquele personagem singelo que vai enrolando o seu cigarro de palha, nesta passagem da mais pura magia: “ele desembrulha um pedaço de tabaco torcido e enrolado em corda. Do bolso da calça fina de tergal cinza, ele traz o canivete de aço inox com detalhes em madrepérola; era ainda menino quando o herdara do avô. Com ele fere e descama o fumo que armazena na palma da mão, depois o despeja na folha de palha, enrola-a na superfície da ponta dos dedos, leva à boca aquela gaita de palha recheada de tabaco picado, lambe a borda da folha com a ponta da língua e, com a saliva, cola-a no corpo do cigarro, encerrando a obra”.

Procedimento simples e poético que contrasta com os muitos coágulos de sangue que virá antes e depois, em profusão. No cérebro emaranhado de traumas e pesadelos e culpas da personagem principal, ou seriam duas personagens mulheres? Ou apenas uma, a mesma? É preciso ler o Entremeios para saber.

Numa passagem inóspita e realista a personagem se questiona: “extirpar o útero de mulher que jamais parira? Sou chão batido em que a semente não germina, sou árvores maldita que não deu fruto, aguilhoada pela ardência da devassidão da infertilidade. O destino poupara-me a desgraça de gerar víboras, de ter, nas palmas, o enxerto fecundo de outra anomalia a perpetuar minha vileza. Jamais desejei reproduzir algo que não partisse de meu cérebro, dos meus sentidos, e a vida secou inopinadamente as minhas entranhas”.

Um romance feito de fendas e camuflagens e com a capa vermelha como glóbulos de sangue, muito sangue. Afinal havia um buril, sim um buril.

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

ROCK: O GRITO ANCESTRAL

 

Por Milton Rezende

Eu havia planejado a minha “Trilogia das Afinidades” em três livros, em três aspectos da minha literatura, quais sejam: “De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – Uma Introdução”, “A Magia e a Arte dos Cemitérios” e “Rock: O Gritos Ancestral”. Este último volume foi abortado, não tive condições de leva-lo adiante por causa de diversos favores, o principal deles foi o derrame cerebral (avc) que me aconteceu em 2016. Só escrevi essa pequena introdução abaixo como projeto que não se realizou. Agora eu fico na torcida de que alguém o faça. Fiz este convite ao professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) Anderson Pires Da Silva. Oxalá que o faça.

No início era o verbo e o verbo era transitivo, pedia complemento: aí veio o Rock’n’Roll.

            Falar sobre a música, especialmente sobre o rock é um pouco como tentar fazer uma pequena gênese da aventura humana no planeta. Dos gritos primitivos dos homens das cavernas até o entrosamento quase perfeito entre baixo, bateria, guitarras e vozes. Um fio condutor atravessa a idade dos tempos e celebra a ancestralidade do rock na emergência daquele grito primal, que era um transbordamento de algo que já não cabia mais no invólucro pré-moldado das aparências. O homem não coube, e nunca poderia caber, dentro de si mesmo. O corpo era uma prisão e, simultaneamente, um instrumento de libertação. Cabia, pois, utilizá-lo para expressar o que irrompia de dentro – como lavas de um vulcão de sonoridades.

UM POUCO DA HISTÓRIA

            O Rock, desde os seus primórdios, na década de 1950, parece retirar a sua força primitiva da simplicidade e veio evoluindo com sofisticação e audácia a partir do rhythm and blues dos negros americanos.

            A expressão Rock’n’Roll surgiu quando um radialista, Alan Freed, criou um programa de rádio com este nome em 1951 para divulgar a nova música que estava sendo feita por negros e sendo apreciada crescentemente pelos brancos. O cinema tratou logo de difundir o novo estilo, sobretudo com o filme “Sementes da Violência” (1955), que lançou a música “Rock Around the Clock”, de Bill Haley, como trilha sonora. Mas a verdadeira explosão ainda estava por vir e chegou personificada na figura pélvica de Elvis Presley e, como toda novidade, causou reações da velha guarda a ponto de Frank Sinatra declarar que o Rock era “a música marcial de todos os delinquentes juvenis na face da terra”.

            Como sempre, a reação geralmente fomenta o objeto criticado e então a contracultura se alastrou com a Beat Generation ou Geração Beat, que rendeu frutos sobretudo na literatura.

SEGUINDO A CRONOLOGIA

            Bill Haley, com sua eletrizante “Rock Around the Clock”, pode ser apontado como o “pai do rock”. Nascido em Detroit em 1927, aos treze anos ele tocava guitarra no estilo country & western em shows ambulantes e rádios do interior. O rádio ofereceu-lhe um emprego estável e Bill tornou-se diretor de programação de uma emissora independente da Pensilvânia. Mas Haley tinha, como Alan Freed, um bom ouvido. Sempre ligado no que acontecia à sua volta, observava o interesse crescente dos adolescentes brancos pelos programas de estações dos negros e em suas escapadas para os guetos, ele analisava o ritmo, a melodia e o apelo. Começou então a experimentar, juntando aqueles ritmos ao seu repertório básico de country e fazendo uma síntese com o rhythm and blues: nascia assim o rock’n’roll.

            Elvis Presley tinha com ele a fórmula do rock: nascera e crescera ouvindo blues e country music. Nascido em 1935, em Tupelo, Mississipi, mudou-se com a família para Memphis, Tennessee aos 13 anos de idade e em 1958 chegava ao auge do sucesso. A importância histórica de Elvis e inegável. Ele foi o grande pioneiro, o primeiro a ousar expressar, com a sua voz e o seu corpo, as sensações provocadas pela nova música. As apresentações ao vivo de Elvis botavam fogo na plateia, como nunca havia se visto e o seu comportamento no palco era inovador: seu famoso rebolado de quadris tornou-se um marco no show business.

            Chuck Berry é uma figura decisiva na história do rock, ligando o blues ao pop e levando a música negra às plateias brancas. Não se sabe ao certo o ano do seu nascimento, mas o lugar foi Saint Louis, Missouri e ele começou tocando num coro de igreja, aos seis anos. No início dos anos 50 formou um grupo no colégio e depois foi pra Chicago, tocando com Muddy Waters. Gravou seu primeiro disco, Maybellene pela gravadora Chess Records e não parou mais de emplacar sucessos até 1961. Desapareceu por algum tempo, mas retornou às paradas em 1972. John Lennon chamava-o de “meu ídolo” e a sobrevivência artística de Berry é realmente um fenômeno, pois, com a sua música simples, atravessou décadas a fio, quando o Rock’n’Roll já havia atingido a sofisticação e a complexidade – para além da espontaneidade instintiva dos seus primeiros tempos.

            Little Richard encarnou aquela essência básica do rock, ou seja, balanço, tumulto, barulho, confusão e excesso de energia. Seus grandes sucessos foram Tutti Frutti e Long Tall Sally que estouraram, respectivamente, em 1955 e 1956. Quando abria a boca promovia um massacre vocal que mal permitia que se compreendesse as letras e parecia que tudo se resumia na onomatopeia “a-wop-bop-a-loo-bob-lop-bam-boom” que, no entanto, sifinificava alguma coisa para quem quisesse entender e havia muitos que compravam os seus discos e Little Richard não desapontava. Suas apresentações ao vivo faziam todo mundo dançar. Começou sua carreira cantando em igrejas e aos quinze anos já era um intérprete do Blues.

            A Era dos Beatles (1956-1970):

BEATLES FOREVER

Estamos no ano de 1967, mais precisamente em junho de 1967 e o mundo acaba de ser abalado por um cataclismo poético-sonoro cujos efeitos ainda hoje não foram totalmente rastreados ou compreendidos. Sabe-se, no entanto, que o efeito imediato foi devastador e que os efeitos secundários se estenderão ao longo do tempo enquanto o tempo tiver essa denominação.

Este abalo musical tinha um nome comprido como longa e tortuosa e trabalhada foi sua elaboração. Era um objeto de vinil envolto por uma capa repleta de personalidades e de flores e que se chamava Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band. O Lp em questão havia sido gravado por um grupo de rock (não por acaso o mais famoso) conhecido como Beatles ou The Beatles ou The Silver Beatles ou Long John and the Silver Beatles ou Johnny and the Moondogs ou ainda e finalmente The Quarryman. Este último nome foi na verdade a primeira denominação do grupo, em 1957, portanto dez anos antes do divisor-de-águas ocasionado pelo Sgtº Peppers. Naquela época a formação dos Beatles trazia Pete Best na bateria e somente em 1962 é que Ringo Starr veio se juntar a John Lennon, Paul McCartney e George Harrison; formando então o famoso Fab(ulous) Four de Liverpool, cidade natal de todos eles, situada no noroeste da Inglaterra, às margens do rio Mersey.

O que se seguiu ao encontro destes quatro rapazes já é história. Primeiro foram as importantes presenças do empresário Brian Epstein (que chegou a ser chamado de “o quinto Beatle”) e do produtor George Martin. Depois vieram os inúmeros shows por toda a Europa, as turnês americanas, a instalação da beatlemania em todo o mundo e, paralelamente a toda essa loucura, as gravações em estúdio.

A estreia se dá com o Lp Please Please Me (1963), logo depois aparece With The Beatles (1963); seguido por A Hard Day’s Night (1964) – também transformado em filme por Richard Lester e Beatles For Sale (1964). Em 1965 é gravado o disco Help! com um filme homônimo também dirigido por Lester. A partir de 1966, com o Lp Revolver, os Beatles começam a consolidar uma nova e forte tendência musical-evolutiva delineada no Lp anterior Rubber Soul (1965) e que iria culminar em 1967 com a exuberância sonora & poética do Lp Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band, que significou uma ruptura definitiva com a música que eles mesmos faziam até então e com a própria música, tomada como um todo, que era feita na época pelos conjuntos de rock, daí sua importância como um marco deflagrador de todo um processo rico em criatividade que se seguiu. Ainda em 1967 sai o Lp Magical Mystery Tour (trilha sonora de um filme a cores realizado especialmente para a televisão). No ano seguinte foram lançados dois Lps: Hey Jude e o álbum duplo The Beatles ou White Álbum ou mais simplesmente ainda “Álbum Branco” como ficou conhecido no Brasil. Em 1969, já com todos os problemas se agravando e com um prenúncio de dissolução do grupo, os Beatles voltam aos estúdios da Apple e destilam seus talentos em mais dois Lps de excelente qualidade: Abbey Road e Yellow Submarine, este último transformado em um desenho animado para o cinema com trilha sonora composta e orquestrada por George Martin (lado 2 do disco). Em 1970, ano da separação oficial do grupo, foi lançado o Lp Let it Be juntamente com o filme que levava o mesmo nome. Foi, na verdade, um lançamento patrocinado pela gravadora EMI e produzido por Phil Spector sem o conhecimento e a aprovação formal dos Beatles e inclusive com críticas destes quanto ao resultado final. Mas os Beatles já não existiam mais como conjunto e o disco acabou saindo. Apesar de tudo Let it Be é muito bom e digno de constar com igualdade de condições na discografia oficial.

Depois disso veio o fim do grupo, o fim do sonho (“the dream is over”), mas com o direito de ainda prolongar a noite em que se sonhava por mais um Lp: Beatles Forever (1972), lançado somente no Brasil, Argentina e Espanha, contendo algumas das suas melhores músicas.

Mesmo para alguém que não tenha vivido aquela época (aquela mágica década de 1960 e seus desdobramentos nos anos 1970) basta uma simples audição das músicas dos Beatles para compreender que o legado deste conjunto é permanente e imune à corrosão do tempo (este elemento que realmente define o “quem é quem” nas artes no fim das contas).

Mais de meio século depois da explosão do grupo nós podemos perceber ainda hoje sinais evidentes da permanência e até mesmo de um novo ressurgimento (“eterno retorno”) do fenômeno Beatles. Aquele final da música A Day in the Life idealizado por Lennon nos estúdios de gravação, pode ser estendido e aplicado aos próprios Beatles, ou seja, a ideia de “um som evoluindo do nada até o fim do mundo”. Esta frase diz bem da trajetória e é uma síntese musical do grupo. Os Beatles serão sempre este som evoluindo do nada até o fim do mundo, até o fim de tudo. Sempre.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O PRIVILÉGIO DOS MORTOS


 

“o privilégio dos mortos”, de Whisner Fraga


Por Milton Rezende

 

o filme “Bonitinha, mas ordinária”, um clássico do cinema nacional, com bela atuação do saudoso José Wilker e inspirado na célebre peça de Nelson Rodrigues. Mas o bordão/ideia-fixa do filme, que foi repetido diversas vezes pelo personagem Edgard, é “O mineiro só é solidário no câncer, frase atribuída a Otto Lara Resende.

Esta frase tornou-se icônica, mas não é bem verdade. Entretanto dita pelo ator José Wilker com tanta e especial ênfase que eu me recordo até hoje, donde se depreende que a ênfase é tudo. O próprio Drummond tem um verso neste sentido ao dizer “as coisas/que triste são as coisas consideradas sem ênfase” (in A Flor e a Náusea).

Então, para todos os efeitos, tornou-se realmente verdade que o mineiro só é solidário no câncer. Por extensão poderíamos dizer, alargando o seu horizonte e seu alcance que “O brasileiro só é solidário no câncer”. Aliás, eu acho que é assim que se encontra no filme, não tenho bem certeza.

No romance de Whisner Fraga “o privilégio dos mortos”, publicado pela Editora Patuá no ano de 2019, tem muito disso, pois trata-se de um romance composto, todo ele, de frases poéticas, algumas de efeito. Poder-se-ia dizer, exagerando um pouco, já que o livro é extenso com 250 páginas, que é um longo poema em prosa. Mas não. São frases poéticas mesmo, soltas, avulsas, lapidares, como pássaros esvoaçantes, em todo o corpo do livro. Você pode ir pinçando aqui e acolá a seu bel prazer, estas frases, helena.

O narrador, de passagem por Tejuco, sua cidade natal, retornando a ela diz: “fui até a rua seis e, a poucos passos do portão verde da casa em que meu amigo morou, ainda estava em dúvida se devia gritar por ele ou não”. E foi assim que o personagem-narrador “começou a questionar a sua morte” a morte do seu amigo heitor. E para ele, o narrador, “o processo só se completa quando eu contemplo o cadáver, quando atesto, que a pessoa abandonou, de fato, esse mundo”. “e eu não queria enlouquecer, pois os loucos sofrem demais, helena.

Mais adiante o narrador segue introjetando a perda do amigo à sombra de sua cidade natal Tejuco.

“e na noite anterior, helena, eu vinha cansado de outros juízos e não consegui, por um momento, acatar as pistas da lógica e depois, depois, helena, convivia com essa excentricidade: eu precisava ver o corpo, eu precisava tocar o frio, a ausência, a rigidez, para me certificar do fim e foi isso que se deu, certamente foi isso, porque eu havia deixado Tejuco e presenciei a morte de meu amigo, apenas naquela folha a-quatro descorada, que anunciava a missa de sétimo dia”.

“o pânico é uma necessidade de deserção”.

E o narrador do livro, num paroxismo de álcool e de delírio desenterra o seu amigo heitor. Este romance é feito, todo ele, assim: não há um enredo definido e obedece ao fluxo de consciência do narrador/autor.

Outro recurso utilizado, além de ser escrito totalmente em letras minúsculas, até para nomes próprios é a inserção da “personagem” helena, sempre citada ao longo do livro, dando a ele uma coloquialidade e uma fluidez tremenda. Verdadeiramente um achado literário, não é mesmo, helena?

É quando afinal, e ao final do livro, a turma chega ao cemitério de Tejuco para celebrar a morte do amigo heitor. E eles são alguns e a turma entre excitada e embriagada, pois embriaguez e sensualidade é o que de melhor define a morte, desde os filmes do Nosferatu, de Marnau, com excepcional interpretação de Max Schreck, quando ele sobe as escadas do imponderável e do inevitável. E então esta turma suborna o coveiro com uma garrafa de cachaça e vão todos celebrar a Morte, a morte do amigo heitor e numa “evasão” erótica de corpos despindo de suas vestes e dançando sobre as tumbas que nem observam quando o narrador do romance se distancia uns quinze metros rumo ao túmulo do seu amigo heitor e o desenterra e abrindo o  caixão abraça o cadáver do amigo “vendo e sentindo o corpo do seu amigo inchado, seu amigo incompleto, seu amigo carcomido, seu amigo escurecido e sente vontade de abraça-lo, de  beijá-lo como fazem aqueles que se despedem e o puxa para perto, sentindo tudo que eventualmente fora pele, que fora carne, que fora músculo, que fora união, cola nele e, mesmo enojado, avança seus lábios e aproxima a cabeça do seu peito e sente medo de que tudo desmorone, tem medo que algo que já tenha sido ele, heitor, esteja por perto e não goste daquele carinho, de forma que tenta não amarotar o terno cinza...” e se despede do seu amigo indagando:  “o experimento de deus tem prazo de validade?”

 

“a proximidade da morte fortalece minha fé,

o que me resta senão isso?

resta-lhe o mundo.

e a esperança?

a esperança não.

domingo, 4 de janeiro de 2026

À FLOR DA PELE


 

O crítico e (é) o escritor – uma análise de “À flor da pele”, de Krishnamurti Góes dos Anjos


Por Milton Rezende

 

“O eixo do mundo gastou-se”. E esta frase, dita por um camponês iletrado da zona rural de Ervália, em Minas Gerais, revela duas verdades: a primeira delas pela justeza do conceito que emite, tão sintetizado que chega a doer. Definitivamente o eixo do mundo encontra-se gasto, desgastado e ele agora, o mundo, gira louco, em descompasso e sem propósito de existir.

A segunda verdade é a de que não precisamos de um conhecimento sistematizado, acadêmico, para fazer uma correta leitura do mundo. Basta a intuição com sua carga de sabedoria implícita demonstrada pelo Geraldinho, um lavrador incauto e descalço capinando a sua lavoura de café no interior de Minas Gerais.

“come chocolates pequena, / come chocolates! / olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates” /, como já dizia o grande Fernando Pessoa.

Este pensamento surge numa época de distopias brilhantes, de um brilho opaco, em que a vida surge ofuscada pela nossa incapacidade de interpretação. Nunca o “the dream is over” anunciado por John Lennon no final dos anos de 1970 foi tão pertinente como agora: o sonho acabou. Mesmo!

O livro de contos “À flor da pele” (Editora Laranja Original, 2020), de Krishnamurti surge num fatídico ano, marcado por uma pandemia, uma crise econômica e uma crise política causada por um desgoverno nefasto sob todos os aspectos, mas que foi escolhido por nós, brasileiros, em nossa falta de opção.

“À flor da pele” aparece num momento conturbado como este para funcionar como um contraponto e sua leitura serviu para quebrar alguns paradigmas disseminados genericamente pelo senso comum no sentido de que um bom crítico literário não seria, por definição, um bom escritor ou até mesmo o julgamento pernicioso de que os críticos de literatura são, igualmente por definição, autores frustrados que,  não dando conta de escrever grandes obras de ficção, passam a ser críticos literários; podendo ser muito competentes no que fazem ao desempenhar tão nobre e necessária função.

Esses conceitos vagos e sem fundamentos foram meio que disseminados e de certa forma aceitos como uma regra geral. Mas não é, definitivamente, o caso do Krishnamurti. E este seu livro de contos vem agora justamente para comprovar este grande equívoco, ao afirmar que se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo e com qualidade.

Krishnamurti Góes dos Anjos com este seu “À flor da pele”, prova-nos que é possível ser um ótimo crítico literário ao mesmo tempo que desenvolve uma literatura de criação e de qualidade. O autor em questão tem se destacado como um dos nossos melhores e mais profícuos críticos de literatura e respeitável resenhista, desenvolvendo um trabalho muito importante de disseminação do gosto pela leitura ao privilegiar sobretudo a literatura contemporânea de autores novos e emergentes no cenário literário nacional.

O escritor Krishnamurti, com suas múltiplas resenhas, faz exatamente esta ponte entre os autores e os prováveis e eventuais leitores, tornando a leitura algo fascinante. O seu brilhante “À flor da pele” é um livro de contos em que se confirma esta grata surpresa de se encontrar no crítico renomado um autor de muitos recursos e versado numa prosa literária de excelente fruição e encantamento.

Os contos são bem urdidos e transcorrem numa leitura agradável ao mesmo empo em que subliminarmente, nos leva a muitas e diferentes reflexões. “Highly Important! Revolution in Brazil!”, que abre o seu volume de contos narra uma pretendida “Revolução no Brasil”, com uma deliciosa narrativa histórica sobre uma utópica independência de Pernambuco nos idos de 1817. Parece, no entanto, ser uma leitura atualizada do que somos ainda hoje, neste referencial projetado de um Brasil do Século XXI. Quase nada mudou desde sempre.

Em “Dois velhos ou quase velhos” Krishnamurti Góes dos Anjos nos apresenta um diálogo telefônico entre dois amigos já velhos, ou quase velhos. Um mais expansivo e o outro, retraído. Esse diálogo (ou pode-se mesmo dizer um quase monólogo) transcorre mais com o expansivo falando e narrando as peripécias de um encontro fortuito que ele teve com uma mulher jovem, “um avião”, numa viagem de metrô. A ideia do expansivo era convidar o amigo retraído para tomarem uma cerveja no bar “Lanterna dos Afogados” e conversarem, mas, diante da recusa desanimada do amigo a conversa, toda ela, se dá ao telefone mesmo. Então ele foi narrando seus dissabores a partir daquele encontro providencial e meio acachapante numa linha de metrô. O que aconteceu ou deixou de acontecer era o que se pode esperar de uma conversa entre a juventude radiante e a decrepitude galopante de um velho ou quase velho; daí entendemos como os mais velhos quase sempre se ressentem com os mais jovens, naquilo que se convencionou chamar de choque de gerações: colocando os mais jovens numa escala ascendente de jovialidade contra outro, decadente, numa escala decrescente de aniquilamento. E logo ela, a moça bonita, para começo de conversa o chama de tio e isso o destrói e corrói pela carga de verdade que encerra. E ele, um viúvo solitário, perde ali as suas ilusões afetivas e sexuais e se descobre pobre num país cheios de mazelas políticas e econômicas. Então o expansivo estava fragilizado e queria, conversando com o amigo, algo de reconfortante entre iguais em idade, mas, diante da recusa do outro em sair (também ele um solitário e subempregado, sem dinheiro e meio deprimido). A recusa do amigo mais a súbita consciência de sua decrepitude que chegava aos galopes levaram o expansivo, já agora amargo como um limão, a encerrar subitamente a conversa telefônica dizendo: -- “vou sozinho sim e não quero mais falar, não quero ouvir mais nada de você. A vida é mesmo um absurdo e eu vou ficar sentado à mesa com minha cerveja no bar ‘Lanterna dos Afogados’. Quero apenas isso e é o que me resta, ficar sozinho, sentado num bar tomando cerveja. Tchau!” Dez minutos depois que ele chegara ao bar, aquela moça radiante do metrô liga para um taxista pedindo que a levasse, numa corrida, ao bar de sempre, no “Lanterna dos Afogados” onde ela mantinha suas conversas juvenis e seus encontros (amorosos?) com os homens.

O conto “O Casamento” narra uma história de desencontros. Pode parecer uma contradição, pois casamento pressupõe união, congraçamento, festividades. Mas aqui não. O autor Krishnamurti narra uma cerimônia de casamento em que os convivas parecem deslocados. O personagem central é um senhor de meia idade que mora em outra cidade e o seu motorista já está esperando para voltarem. Ele então adentra o recinto aparentemente sem conhecer ninguém e aguarda o casamento. A noiva se atrasa, é praxe, então ele foi conduzido pelo cerimonial para um formação de casais numa fila de padrinhos. Dão-lhe um par e ela enlaça o seu braço, mas não há sintonia entre eles. Logo ela cede o lugar para outra moça, Mara, que parece ter se interessado pelo senhor grisalho e vice-versa. Nisso o noivo aproximou-se dele. O terno o incomodava, pois não estava acostumado a esse tipo de roupa. O noivo então dá-lhe um abraço tipo quebra-ossos e diz: “estou muito feliz que tenha vindo. Sabe?” Sorriram afetuosamente, mas foram interrompidos pela mestra de cerimônias. Logo chega um senhor, espaçoso, e se anuncia como o pai do noivo, depois acrescentando ser o pai adotivo. Isso gera uma pergunta entre os convivas: e cadê o pai verdadeiro, não veio?  A cerimônia começa e este homem se divide entre a vontade de ficar e continuar na companhia de Mara ou voltar, pois o tempo urge, o casamento atrasou e o motorista o espera com hora previamente marcada. “A gravata apertava como a corda de um enforcado” e ainda mais a preocupação com o horário. Falou com a Mara que morava em outro estado, cinco horas de viagem, com hora marcada de voltar e que ela explicasse ao noivo a sua ausência na festa. Hora de voltar e sair do casório, com ele pesaroso por deixar aquela agradável companhia. Despedem-se enternecidos. Corte! e o autor da narrativa já nos coloca na casa, no quarto do homem convidado que chegando em sua casa vê e pega um porta-retratos. Nele a fotografia do homem que se casou hoje, quando tinha quatro anos. E então fica pensando: “os olhos dele me pareceram um pouco mais escuros que no dia em que ele saiu da sala de parto”.

O ótimo conto “Enfermaria do Hospital Geral” confirma-se a impressão de que a literatura tem, de fato, este poder de resgate sobre a condição humana e sua transitoriedade evidenciada num leito de U.T.I, numa enfermaria de um hospital geral que bem pode ser a alegoria do nosso próprio país, num mundo em dissolução.

Mais adiante, ainda somos surpreendidos com o excelente (e belíssimo) conto “Samírah e a Noite dos Longos Punhais” em que a sensibilidade e engenho do autor nos transporta para a cena dantesca da morte por afogamento do menino sírio Aylan que chocou o mundo inteiro ao aparecer estirado na praia, numa triste saga de refugiados ao redor do planeta à procura de um lugar para viver em busca de paz. Um relato que eu diria poético e carregado de humana beleza mesmo em se tratando de uma tragédia, pois existe poesia mesmo em meio a toda a destruição ocasionada por uma guerra fratricida em que o horror é tamanho que “os nossos olhos são pequenos para ver”, no admirável poema de Carlos Drummond de Andrade.

Dito isto é fechar o livro sensibilizado e sempre atento ao papel catártico que a literatura pode nos proporcionar, ainda que pese o imenso peso da nossa condição humana.

“era o corpo de um menino vestido com camisa de malha vermelha, calça azul-marinho e tênis marrom, deitado de bruços na praia. Era Aylan.”

 

 




 

 

 

 


domingo, 14 de dezembro de 2025

DA ESSENCIALIDADE DA ÁGUA


 

“desta vez mergulhando na força poética de Milton Rezende, autor de quinze livros e uma das vozes mais densas e inquietas da literatura contemporânea.

Em Da Essencialidade da Água, Rezende encara a morte de frente, mas deixa que a vida transborde em cada verso — num equilíbrio raro entre finitude, corpo, limite e transcendência.

Um poeta que não desperdiça palavras, não faz firula e não permite indiferença.

Leitura obrigatória para quem acompanha o trabalho da Merda na Mão e para quem respira literatura com a mesma intensidade que Milton escreve”.

Comentário da Editora Merda na  Mão

Livro publicado pela Editora Sinete, 2024

www.editorasinete.com.br


JORNALEIRO


 

"Jornaleiro" (Milton Rezende)
O menino vendendo o jornal
grita pelas ruas da cidade
com sua voz mecânica
(misto de automatismo e resignação).
A tristeza feita esquecimento
na sobrevivência através de palavras
rápidas e mal articuladas,
“olha o diário olha o diário”.
Naquela noite, ao voltar pra casa,
o menino morreu no trânsito,
e no dia seguinte
a sua morte não foi noticiada no jornal.
Do livro "Areia (À Fragmentação da Pedra)".
Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog.
Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).