terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

ROCK: O GRITO ANCESTRAL

 

Por Milton Rezende

Eu havia planejado a minha “Trilogia das Afinidades” em três livros, em três aspectos da minha literatura, quais sejam: “De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – Uma Introdução”, “A Magia e a Arte dos Cemitérios” e “Rock: O Gritos Ancestral”. Este último volume foi abortado, não tive condições de leva-lo adiante por causa de diversos favores, o principal deles foi o derrame cerebral (avc) que me aconteceu em 2016. Só escrevi essa pequena introdução abaixo como projeto que não se realizou. Agora eu fico na torcida de que alguém o faça. Fiz este convite ao professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) Anderson Pires Da Silva. Oxalá que o faça.

No início era o verbo e o verbo era transitivo, pedia complemento: aí veio o Rock’n’Roll.

            Falar sobre a música, especialmente sobre o rock é um pouco como tentar fazer uma pequena gênese da aventura humana no planeta. Dos gritos primitivos dos homens das cavernas até o entrosamento quase perfeito entre baixo, bateria, guitarras e vozes. Um fio condutor atravessa a idade dos tempos e celebra a ancestralidade do rock na emergência daquele grito primal, que era um transbordamento de algo que já não cabia mais no invólucro pré-moldado das aparências. O homem não coube, e nunca poderia caber, dentro de si mesmo. O corpo era uma prisão e, simultaneamente, um instrumento de libertação. Cabia, pois, utilizá-lo para expressar o que irrompia de dentro – como lavas de um vulcão de sonoridades.

UM POUCO DA HISTÓRIA

            O Rock, desde os seus primórdios, na década de 1950, parece retirar a sua força primitiva da simplicidade e veio evoluindo com sofisticação e audácia a partir do rhythm and blues dos negros americanos.

            A expressão Rock’n’Roll surgiu quando um radialista, Alan Freed, criou um programa de rádio com este nome em 1951 para divulgar a nova música que estava sendo feita por negros e sendo apreciada crescentemente pelos brancos. O cinema tratou logo de difundir o novo estilo, sobretudo com o filme “Sementes da Violência” (1955), que lançou a música “Rock Around the Clock”, de Bill Haley, como trilha sonora. Mas a verdadeira explosão ainda estava por vir e chegou personificada na figura pélvica de Elvis Presley e, como toda novidade, causou reações da velha guarda a ponto de Frank Sinatra declarar que o Rock era “a música marcial de todos os delinquentes juvenis na face da terra”.

            Como sempre, a reação geralmente fomenta o objeto criticado e então a contracultura se alastrou com a Beat Generation ou Geração Beat, que rendeu frutos sobretudo na literatura.

SEGUINDO A CRONOLOGIA

            Bill Haley, com sua eletrizante “Rock Around the Clock”, pode ser apontado como o “pai do rock”. Nascido em Detroit em 1927, aos treze anos ele tocava guitarra no estilo country & western em shows ambulantes e rádios do interior. O rádio ofereceu-lhe um emprego estável e Bill tornou-se diretor de programação de uma emissora independente da Pensilvânia. Mas Haley tinha, como Alan Freed, um bom ouvido. Sempre ligado no que acontecia à sua volta, observava o interesse crescente dos adolescentes brancos pelos programas de estações dos negros e em suas escapadas para os guetos, ele analisava o ritmo, a melodia e o apelo. Começou então a experimentar, juntando aqueles ritmos ao seu repertório básico de country e fazendo uma síntese com o rhythm and blues: nascia assim o rock’n’roll.

            Elvis Presley tinha com ele a fórmula do rock: nascera e crescera ouvindo blues e country music. Nascido em 1935, em Tupelo, Mississipi, mudou-se com a família para Memphis, Tennessee aos 13 anos de idade e em 1958 chegava ao auge do sucesso. A importância histórica de Elvis e inegável. Ele foi o grande pioneiro, o primeiro a ousar expressar, com a sua voz e o seu corpo, as sensações provocadas pela nova música. As apresentações ao vivo de Elvis botavam fogo na plateia, como nunca havia se visto e o seu comportamento no palco era inovador: seu famoso rebolado de quadris tornou-se um marco no show business.

            Chuck Berry é uma figura decisiva na história do rock, ligando o blues ao pop e levando a música negra às plateias brancas. Não se sabe ao certo o ano do seu nascimento, mas o lugar foi Saint Louis, Missouri e ele começou tocando num coro de igreja, aos seis anos. No início dos anos 50 formou um grupo no colégio e depois foi pra Chicago, tocando com Muddy Waters. Gravou seu primeiro disco, Maybellene pela gravadora Chess Records e não parou mais de emplacar sucessos até 1961. Desapareceu por algum tempo, mas retornou às paradas em 1972. John Lennon chamava-o de “meu ídolo” e a sobrevivência artística de Berry é realmente um fenômeno, pois, com a sua música simples, atravessou décadas a fio, quando o Rock’n’Roll já havia atingido a sofisticação e a complexidade – para além da espontaneidade instintiva dos seus primeiros tempos.

            Little Richard encarnou aquela essência básica do rock, ou seja, balanço, tumulto, barulho, confusão e excesso de energia. Seus grandes sucessos foram Tutti Frutti e Long Tall Sally que estouraram, respectivamente, em 1955 e 1956. Quando abria a boca promovia um massacre vocal que mal permitia que se compreendesse as letras e parecia que tudo se resumia na onomatopeia “a-wop-bop-a-loo-bob-lop-bam-boom” que, no entanto, sifinificava alguma coisa para quem quisesse entender e havia muitos que compravam os seus discos e Little Richard não desapontava. Suas apresentações ao vivo faziam todo mundo dançar. Começou sua carreira cantando em igrejas e aos quinze anos já era um intérprete do Blues.

            A Era dos Beatles (1956-1970):

BEATLES FOREVER

Estamos no ano de 1967, mais precisamente em junho de 1967 e o mundo acaba de ser abalado por um cataclismo poético-sonoro cujos efeitos ainda hoje não foram totalmente rastreados ou compreendidos. Sabe-se, no entanto, que o efeito imediato foi devastador e que os efeitos secundários se estenderão ao longo do tempo enquanto o tempo tiver essa denominação.

Este abalo musical tinha um nome comprido como longa e tortuosa e trabalhada foi sua elaboração. Era um objeto de vinil envolto por uma capa repleta de personalidades e de flores e que se chamava Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band. O Lp em questão havia sido gravado por um grupo de rock (não por acaso o mais famoso) conhecido como Beatles ou The Beatles ou The Silver Beatles ou Long John and the Silver Beatles ou Johnny and the Moondogs ou ainda e finalmente The Quarryman. Este último nome foi na verdade a primeira denominação do grupo, em 1957, portanto dez anos antes do divisor-de-águas ocasionado pelo Sgtº Peppers. Naquela época a formação dos Beatles trazia Pete Best na bateria e somente em 1962 é que Ringo Starr veio se juntar a John Lennon, Paul McCartney e George Harrison; formando então o famoso Fab(ulous) Four de Liverpool, cidade natal de todos eles, situada no noroeste da Inglaterra, às margens do rio Mersey.

O que se seguiu ao encontro destes quatro rapazes já é história. Primeiro foram as importantes presenças do empresário Brian Epstein (que chegou a ser chamado de “o quinto Beatle”) e do produtor George Martin. Depois vieram os inúmeros shows por toda a Europa, as turnês americanas, a instalação da beatlemania em todo o mundo e, paralelamente a toda essa loucura, as gravações em estúdio.

A estreia se dá com o Lp Please Please Me (1963), logo depois aparece With The Beatles (1963); seguido por A Hard Day’s Night (1964) – também transformado em filme por Richard Lester e Beatles For Sale (1964). Em 1965 é gravado o disco Help! com um filme homônimo também dirigido por Lester. A partir de 1966, com o Lp Revolver, os Beatles começam a consolidar uma nova e forte tendência musical-evolutiva delineada no Lp anterior Rubber Soul (1965) e que iria culminar em 1967 com a exuberância sonora & poética do Lp Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band, que significou uma ruptura definitiva com a música que eles mesmos faziam até então e com a própria música, tomada como um todo, que era feita na época pelos conjuntos de rock, daí sua importância como um marco deflagrador de todo um processo rico em criatividade que se seguiu. Ainda em 1967 sai o Lp Magical Mystery Tour (trilha sonora de um filme a cores realizado especialmente para a televisão). No ano seguinte foram lançados dois Lps: Hey Jude e o álbum duplo The Beatles ou White Álbum ou mais simplesmente ainda “Álbum Branco” como ficou conhecido no Brasil. Em 1969, já com todos os problemas se agravando e com um prenúncio de dissolução do grupo, os Beatles voltam aos estúdios da Apple e destilam seus talentos em mais dois Lps de excelente qualidade: Abbey Road e Yellow Submarine, este último transformado em um desenho animado para o cinema com trilha sonora composta e orquestrada por George Martin (lado 2 do disco). Em 1970, ano da separação oficial do grupo, foi lançado o Lp Let it Be juntamente com o filme que levava o mesmo nome. Foi, na verdade, um lançamento patrocinado pela gravadora EMI e produzido por Phil Spector sem o conhecimento e a aprovação formal dos Beatles e inclusive com críticas destes quanto ao resultado final. Mas os Beatles já não existiam mais como conjunto e o disco acabou saindo. Apesar de tudo Let it Be é muito bom e digno de constar com igualdade de condições na discografia oficial.

Depois disso veio o fim do grupo, o fim do sonho (“the dream is over”), mas com o direito de ainda prolongar a noite em que se sonhava por mais um Lp: Beatles Forever (1972), lançado somente no Brasil, Argentina e Espanha, contendo algumas das suas melhores músicas.

Mesmo para alguém que não tenha vivido aquela época (aquela mágica década de 1960 e seus desdobramentos nos anos 1970) basta uma simples audição das músicas dos Beatles para compreender que o legado deste conjunto é permanente e imune à corrosão do tempo (este elemento que realmente define o “quem é quem” nas artes no fim das contas).

Mais de meio século depois da explosão do grupo nós podemos perceber ainda hoje sinais evidentes da permanência e até mesmo de um novo ressurgimento (“eterno retorno”) do fenômeno Beatles. Aquele final da música A Day in the Life idealizado por Lennon nos estúdios de gravação, pode ser estendido e aplicado aos próprios Beatles, ou seja, a ideia de “um som evoluindo do nada até o fim do mundo”. Esta frase diz bem da trajetória e é uma síntese musical do grupo. Os Beatles serão sempre este som evoluindo do nada até o fim do mundo, até o fim de tudo. Sempre.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O PRIVILÉGIO DOS MORTOS


 

“o privilégio dos mortos”, de Whisner Fraga


Por Milton Rezende

 

o filme “Bonitinha, mas ordinária”, um clássico do cinema nacional, com bela atuação do saudoso José Wilker e inspirado na célebre peça de Nelson Rodrigues. Mas o bordão/ideia-fixa do filme, que foi repetido diversas vezes pelo personagem Edgard, é “O mineiro só é solidário no câncer, frase atribuída a Otto Lara Resende.

Esta frase tornou-se icônica, mas não é bem verdade. Entretanto dita pelo ator José Wilker com tanta e especial ênfase que eu me recordo até hoje, donde se depreende que a ênfase é tudo. O próprio Drummond tem um verso neste sentido ao dizer “as coisas/que triste são as coisas consideradas sem ênfase” (in A Flor e a Náusea).

Então, para todos os efeitos, tornou-se realmente verdade que o mineiro só é solidário no câncer. Por extensão poderíamos dizer, alargando o seu horizonte e seu alcance que “O brasileiro só é solidário no câncer”. Aliás, eu acho que é assim que se encontra no filme, não tenho bem certeza.

No romance de Whisner Fraga “o privilégio dos mortos”, publicado pela Editora Patuá no ano de 2019, tem muito disso, pois trata-se de um romance composto, todo ele, de frases poéticas, algumas de efeito. Poder-se-ia dizer, exagerando um pouco, já que o livro é extenso com 250 páginas, que é um longo poema em prosa. Mas não. São frases poéticas mesmo, soltas, avulsas, lapidares, como pássaros esvoaçantes, em todo o corpo do livro. Você pode ir pinçando aqui e acolá a seu bel prazer, estas frases, helena.

O narrador, de passagem por Tejuco, sua cidade natal, retornando a ela diz: “fui até a rua seis e, a poucos passos do portão verde da casa em que meu amigo morou, ainda estava em dúvida se devia gritar por ele ou não”. E foi assim que o personagem-narrador “começou a questionar a sua morte” a morte do seu amigo heitor. E para ele, o narrador, “o processo só se completa quando eu contemplo o cadáver, quando atesto, que a pessoa abandonou, de fato, esse mundo”. “e eu não queria enlouquecer, pois os loucos sofrem demais, helena.

Mais adiante o narrador segue introjetando a perda do amigo à sombra de sua cidade natal Tejuco.

“e na noite anterior, helena, eu vinha cansado de outros juízos e não consegui, por um momento, acatar as pistas da lógica e depois, depois, helena, convivia com essa excentricidade: eu precisava ver o corpo, eu precisava tocar o frio, a ausência, a rigidez, para me certificar do fim e foi isso que se deu, certamente foi isso, porque eu havia deixado Tejuco e presenciei a morte de meu amigo, apenas naquela folha a-quatro descorada, que anunciava a missa de sétimo dia”.

“o pânico é uma necessidade de deserção”.

E o narrador do livro, num paroxismo de álcool e de delírio desenterra o seu amigo heitor. Este romance é feito, todo ele, assim: não há um enredo definido e obedece ao fluxo de consciência do narrador/autor.

Outro recurso utilizado, além de ser escrito totalmente em letras minúsculas, até para nomes próprios é a inserção da “personagem” helena, sempre citada ao longo do livro, dando a ele uma coloquialidade e uma fluidez tremenda. Verdadeiramente um achado literário, não é mesmo, helena?

É quando afinal, e ao final do livro, a turma chega ao cemitério de Tejuco para celebrar a morte do amigo heitor. E eles são alguns e a turma entre excitada e embriagada, pois embriaguez e sensualidade é o que de melhor define a morte, desde os filmes do Nosferatu, de Marnau, com excepcional interpretação de Max Schreck, quando ele sobe as escadas do imponderável e do inevitável. E então esta turma suborna o coveiro com uma garrafa de cachaça e vão todos celebrar a Morte, a morte do amigo heitor e numa “evasão” erótica de corpos despindo de suas vestes e dançando sobre as tumbas que nem observam quando o narrador do romance se distancia uns quinze metros rumo ao túmulo do seu amigo heitor e o desenterra e abrindo o  caixão abraça o cadáver do amigo “vendo e sentindo o corpo do seu amigo inchado, seu amigo incompleto, seu amigo carcomido, seu amigo escurecido e sente vontade de abraça-lo, de  beijá-lo como fazem aqueles que se despedem e o puxa para perto, sentindo tudo que eventualmente fora pele, que fora carne, que fora músculo, que fora união, cola nele e, mesmo enojado, avança seus lábios e aproxima a cabeça do seu peito e sente medo de que tudo desmorone, tem medo que algo que já tenha sido ele, heitor, esteja por perto e não goste daquele carinho, de forma que tenta não amarotar o terno cinza...” e se despede do seu amigo indagando:  “o experimento de deus tem prazo de validade?”

 

“a proximidade da morte fortalece minha fé,

o que me resta senão isso?

resta-lhe o mundo.

e a esperança?

a esperança não.

domingo, 4 de janeiro de 2026

À FLOR DA PELE


 

O crítico e (é) o escritor – uma análise de “À flor da pele”, de Krishnamurti Góes dos Anjos


Por Milton Rezende

 

“O eixo do mundo gastou-se”. E esta frase, dita por um camponês iletrado da zona rural de Ervália, em Minas Gerais, revela duas verdades: a primeira delas pela justeza do conceito que emite, tão sintetizado que chega a doer. Definitivamente o eixo do mundo encontra-se gasto, desgastado e ele agora, o mundo, gira louco, em descompasso e sem propósito de existir.

A segunda verdade é a de que não precisamos de um conhecimento sistematizado, acadêmico, para fazer uma correta leitura do mundo. Basta a intuição com sua carga de sabedoria implícita demonstrada pelo Geraldinho, um lavrador incauto e descalço capinando a sua lavoura de café no interior de Minas Gerais.

“come chocolates pequena, / come chocolates! / olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates” /, como já dizia o grande Fernando Pessoa.

Este pensamento surge numa época de distopias brilhantes, de um brilho opaco, em que a vida surge ofuscada pela nossa incapacidade de interpretação. Nunca o “the dream is over” anunciado por John Lennon no final dos anos de 1970 foi tão pertinente como agora: o sonho acabou. Mesmo!

O livro de contos “À flor da pele” (Editora Laranja Original, 2020), de Krishnamurti surge num fatídico ano, marcado por uma pandemia, uma crise econômica e uma crise política causada por um desgoverno nefasto sob todos os aspectos, mas que foi escolhido por nós, brasileiros, em nossa falta de opção.

“À flor da pele” aparece num momento conturbado como este para funcionar como um contraponto e sua leitura serviu para quebrar alguns paradigmas disseminados genericamente pelo senso comum no sentido de que um bom crítico literário não seria, por definição, um bom escritor ou até mesmo o julgamento pernicioso de que os críticos de literatura são, igualmente por definição, autores frustrados que,  não dando conta de escrever grandes obras de ficção, passam a ser críticos literários; podendo ser muito competentes no que fazem ao desempenhar tão nobre e necessária função.

Esses conceitos vagos e sem fundamentos foram meio que disseminados e de certa forma aceitos como uma regra geral. Mas não é, definitivamente, o caso do Krishnamurti. E este seu livro de contos vem agora justamente para comprovar este grande equívoco, ao afirmar que se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo e com qualidade.

Krishnamurti Góes dos Anjos com este seu “À flor da pele”, prova-nos que é possível ser um ótimo crítico literário ao mesmo tempo que desenvolve uma literatura de criação e de qualidade. O autor em questão tem se destacado como um dos nossos melhores e mais profícuos críticos de literatura e respeitável resenhista, desenvolvendo um trabalho muito importante de disseminação do gosto pela leitura ao privilegiar sobretudo a literatura contemporânea de autores novos e emergentes no cenário literário nacional.

O escritor Krishnamurti, com suas múltiplas resenhas, faz exatamente esta ponte entre os autores e os prováveis e eventuais leitores, tornando a leitura algo fascinante. O seu brilhante “À flor da pele” é um livro de contos em que se confirma esta grata surpresa de se encontrar no crítico renomado um autor de muitos recursos e versado numa prosa literária de excelente fruição e encantamento.

Os contos são bem urdidos e transcorrem numa leitura agradável ao mesmo empo em que subliminarmente, nos leva a muitas e diferentes reflexões. “Highly Important! Revolution in Brazil!”, que abre o seu volume de contos narra uma pretendida “Revolução no Brasil”, com uma deliciosa narrativa histórica sobre uma utópica independência de Pernambuco nos idos de 1817. Parece, no entanto, ser uma leitura atualizada do que somos ainda hoje, neste referencial projetado de um Brasil do Século XXI. Quase nada mudou desde sempre.

Em “Dois velhos ou quase velhos” Krishnamurti Góes dos Anjos nos apresenta um diálogo telefônico entre dois amigos já velhos, ou quase velhos. Um mais expansivo e o outro, retraído. Esse diálogo (ou pode-se mesmo dizer um quase monólogo) transcorre mais com o expansivo falando e narrando as peripécias de um encontro fortuito que ele teve com uma mulher jovem, “um avião”, numa viagem de metrô. A ideia do expansivo era convidar o amigo retraído para tomarem uma cerveja no bar “Lanterna dos Afogados” e conversarem, mas, diante da recusa desanimada do amigo a conversa, toda ela, se dá ao telefone mesmo. Então ele foi narrando seus dissabores a partir daquele encontro providencial e meio acachapante numa linha de metrô. O que aconteceu ou deixou de acontecer era o que se pode esperar de uma conversa entre a juventude radiante e a decrepitude galopante de um velho ou quase velho; daí entendemos como os mais velhos quase sempre se ressentem com os mais jovens, naquilo que se convencionou chamar de choque de gerações: colocando os mais jovens numa escala ascendente de jovialidade contra outro, decadente, numa escala decrescente de aniquilamento. E logo ela, a moça bonita, para começo de conversa o chama de tio e isso o destrói e corrói pela carga de verdade que encerra. E ele, um viúvo solitário, perde ali as suas ilusões afetivas e sexuais e se descobre pobre num país cheios de mazelas políticas e econômicas. Então o expansivo estava fragilizado e queria, conversando com o amigo, algo de reconfortante entre iguais em idade, mas, diante da recusa do outro em sair (também ele um solitário e subempregado, sem dinheiro e meio deprimido). A recusa do amigo mais a súbita consciência de sua decrepitude que chegava aos galopes levaram o expansivo, já agora amargo como um limão, a encerrar subitamente a conversa telefônica dizendo: -- “vou sozinho sim e não quero mais falar, não quero ouvir mais nada de você. A vida é mesmo um absurdo e eu vou ficar sentado à mesa com minha cerveja no bar ‘Lanterna dos Afogados’. Quero apenas isso e é o que me resta, ficar sozinho, sentado num bar tomando cerveja. Tchau!” Dez minutos depois que ele chegara ao bar, aquela moça radiante do metrô liga para um taxista pedindo que a levasse, numa corrida, ao bar de sempre, no “Lanterna dos Afogados” onde ela mantinha suas conversas juvenis e seus encontros (amorosos?) com os homens.

O conto “O Casamento” narra uma história de desencontros. Pode parecer uma contradição, pois casamento pressupõe união, congraçamento, festividades. Mas aqui não. O autor Krishnamurti narra uma cerimônia de casamento em que os convivas parecem deslocados. O personagem central é um senhor de meia idade que mora em outra cidade e o seu motorista já está esperando para voltarem. Ele então adentra o recinto aparentemente sem conhecer ninguém e aguarda o casamento. A noiva se atrasa, é praxe, então ele foi conduzido pelo cerimonial para um formação de casais numa fila de padrinhos. Dão-lhe um par e ela enlaça o seu braço, mas não há sintonia entre eles. Logo ela cede o lugar para outra moça, Mara, que parece ter se interessado pelo senhor grisalho e vice-versa. Nisso o noivo aproximou-se dele. O terno o incomodava, pois não estava acostumado a esse tipo de roupa. O noivo então dá-lhe um abraço tipo quebra-ossos e diz: “estou muito feliz que tenha vindo. Sabe?” Sorriram afetuosamente, mas foram interrompidos pela mestra de cerimônias. Logo chega um senhor, espaçoso, e se anuncia como o pai do noivo, depois acrescentando ser o pai adotivo. Isso gera uma pergunta entre os convivas: e cadê o pai verdadeiro, não veio?  A cerimônia começa e este homem se divide entre a vontade de ficar e continuar na companhia de Mara ou voltar, pois o tempo urge, o casamento atrasou e o motorista o espera com hora previamente marcada. “A gravata apertava como a corda de um enforcado” e ainda mais a preocupação com o horário. Falou com a Mara que morava em outro estado, cinco horas de viagem, com hora marcada de voltar e que ela explicasse ao noivo a sua ausência na festa. Hora de voltar e sair do casório, com ele pesaroso por deixar aquela agradável companhia. Despedem-se enternecidos. Corte! e o autor da narrativa já nos coloca na casa, no quarto do homem convidado que chegando em sua casa vê e pega um porta-retratos. Nele a fotografia do homem que se casou hoje, quando tinha quatro anos. E então fica pensando: “os olhos dele me pareceram um pouco mais escuros que no dia em que ele saiu da sala de parto”.

O ótimo conto “Enfermaria do Hospital Geral” confirma-se a impressão de que a literatura tem, de fato, este poder de resgate sobre a condição humana e sua transitoriedade evidenciada num leito de U.T.I, numa enfermaria de um hospital geral que bem pode ser a alegoria do nosso próprio país, num mundo em dissolução.

Mais adiante, ainda somos surpreendidos com o excelente (e belíssimo) conto “Samírah e a Noite dos Longos Punhais” em que a sensibilidade e engenho do autor nos transporta para a cena dantesca da morte por afogamento do menino sírio Aylan que chocou o mundo inteiro ao aparecer estirado na praia, numa triste saga de refugiados ao redor do planeta à procura de um lugar para viver em busca de paz. Um relato que eu diria poético e carregado de humana beleza mesmo em se tratando de uma tragédia, pois existe poesia mesmo em meio a toda a destruição ocasionada por uma guerra fratricida em que o horror é tamanho que “os nossos olhos são pequenos para ver”, no admirável poema de Carlos Drummond de Andrade.

Dito isto é fechar o livro sensibilizado e sempre atento ao papel catártico que a literatura pode nos proporcionar, ainda que pese o imenso peso da nossa condição humana.

“era o corpo de um menino vestido com camisa de malha vermelha, calça azul-marinho e tênis marrom, deitado de bruços na praia. Era Aylan.”

 

 




 

 

 

 


domingo, 14 de dezembro de 2025

DA ESSENCIALIDADE DA ÁGUA


 

“desta vez mergulhando na força poética de Milton Rezende, autor de quinze livros e uma das vozes mais densas e inquietas da literatura contemporânea.

Em Da Essencialidade da Água, Rezende encara a morte de frente, mas deixa que a vida transborde em cada verso — num equilíbrio raro entre finitude, corpo, limite e transcendência.

Um poeta que não desperdiça palavras, não faz firula e não permite indiferença.

Leitura obrigatória para quem acompanha o trabalho da Merda na Mão e para quem respira literatura com a mesma intensidade que Milton escreve”.

Comentário da Editora Merda na  Mão

Livro publicado pela Editora Sinete, 2024

www.editorasinete.com.br


JORNALEIRO


 

"Jornaleiro" (Milton Rezende)
O menino vendendo o jornal
grita pelas ruas da cidade
com sua voz mecânica
(misto de automatismo e resignação).
A tristeza feita esquecimento
na sobrevivência através de palavras
rápidas e mal articuladas,
“olha o diário olha o diário”.
Naquela noite, ao voltar pra casa,
o menino morreu no trânsito,
e no dia seguinte
a sua morte não foi noticiada no jornal.
Do livro "Areia (À Fragmentação da Pedra)".
Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog.
Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

domingo, 7 de dezembro de 2025

MEUS E-BOOKS 4


 

PREFÁCIO

 

Lembranças ao se olhar para trás. Retroceder no tempo e contemplar seus significados a/temporários quando, vivenciados, eles se impunham com a sua carga de veracidade e com a sua força no dia a dia da vida. Contemplá-las agora em suas facetas realísticas e metafóricas é um exercício lúdico e nostálgico: Quem e quais foram aquelas figuras femininas que motivaram a escrita destes poemas denominados “Erotismo Sutil” na classificação de Maria José Rezende Campos em sua dissertação de mestrado que foi publicada em livro de 2015 com o nome de “Tempo de Poesia: Intertextualidade, Heteronímia e Inventário Poético em Milton Rezende”. Quem e quais foram aquelas figuras femininas? Algumas já nem me lembro mais no decorrer de uma existência e perdem-se no tempo, mas sobrevivem em poesia. Relendo agora essa dissertação percebi que haviam outros poemas, além daqueles que lá se encontram com essa mesma temática. Decidi, então, completar essa pequena lista de poemas que foram escritos no período e no intervalo que vai de 1986 a 2024.

Por Milton Rezende

 

SINOPSE

 

Erotismo Sutil é uma coletânea poética que explora a sensualidade e o desejo a partir de um olhar observador e, por vezes, nostálgico. Os poemas, escritos por Milton Rezende, abordam a beleza do corpo feminino em diversas situações e contextos, como a menina na piscina ("As impurezas do branco"), a figura enigmática na praça ("Balada das duas mulheres na praça") e a imagem idealizada em fotografias ("Perfil").


A natureza e seus elementos, como flores e rios, frequentemente se entrelaçam com as descrições da figura amada, criando metáforas que realçam a delicadeza e a força do erotismo ("Botânica e as variações da flor", "Nas águas do rio", "Tempo de manga"). Há também uma exploração da memória e da imaginação como veículos para a experiência do desejo, mesmo na ausência do outro ("Marolhar", "Nu").


O eu-lírico se posiciona como um admirador que capta detalhes e sensações, transformando o cotidiano em um cenário para a manifestação sutil do erótico, como o jogo de luz e sombras que revela a imagem desejada ("Num jogo de luz e sombras"). A obra convida o leitor a uma jornada pelos sentidos, onde o olhar e a lembrança são tão potentes quanto a presença física.

Por Rogers Silva

 

 

FICHA TÉCNICA:

Erotismo sutil (e-book)

Milton Rezende

23 páginas

2025

Português

ILUSTRAÇÃO DA CAPA:

Gustavo Coelho    

PRODUÇÃO

Rogers Silva

REVISÃO:

Milton Rezende

PREÇO E ONDE COMPRAR:

R$ 9,99

Kindle/Amazon

Google Play/Livros

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de Setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF. Funcionário público aposentado por Varginha (MG), morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP).

Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados: “O Acaso das Manhãs” (Edicon, 1986), “Areia (À Fragmentação da Pedra)” (Scortecci, 1989), “De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – Uma Introdução” (Templo, 2006), “Uma Escada que Deságua no Silêncio” (Multifoco, 2009), “A Sentinela em Fuga e Outras Ausências” (Multifoco, 2011), “Inventário de Sombras” (Multifoco, 2012), “Textos e Ensaios” (Multifoco, 2012), “O Jardim Simultâneo” (Penalux, 2013), “A Magia e a Arte dos Cemitérios” (Penalux, 2014), “Um Andarilho Dentro de Casa” (Penalux, 2017), “Mais uma Xícara de Café – One More Cup of Coffee ” (Penalux, 2017), “A Casa Improvisada” (Penalux, 2019), “Anímica” (Penalux, 2022), “Antologia Poética – Literária I” (Grupo Editorial Atlântico, 2022 - editado no Brasil, Portugal, Angola e Cabo Verde ) e “Da Essencialidade da Água” (Sinete, 2024).

Possui quatro ebooks: “Textos e Ensaios” (Bibliomundi, 2018), “Antologia Poética – Literária I” (Grupo Editorial Atlântico, 2022), “Coletânea Cemiterial” (Kindle/Amazon, 2023) e “Erotismo Sutil” (Kindle/Amazon, 2025. Tem dezenas de poemas traduzidos para o inglês e o espanhol, além da criação de área no Museu da Pessoa.

Publica em diversos blogs, revistas, jornais e sites de literatura no Brasil e alguns no exterior, tais como: Germina, Alagunas, Subversa, Jornal de Poesia, O Bule, Poesia para Todos, Translittera, Palpitar, Gotas de Poesia e Outras Essências, Portal Literal, Recanto das Letras, Gaveta do Ivo, Contos Cabulosos, Cronópios, Jornal Rascunho, Mallarmargens, Amaité Poesias & Cia., Revista Samizdat, Entrementes, Revista Gueto, Revista Traços, Conto Brasileiro, LiteraLivre, Plástico Bolha, Ecos da Palavra, Littera 7, Literatura & Fechadura, Cronopio ideas libres y diversas, Revista Jezebel, Mar de Lá, Vila da Utopia, Portal fazia.poesia, Crônicas Cariocas e nas Revistas portuguesas TriploV e InComunidade.

É um dos colunistas da Revista O Bule e colabora regularmente com a Revista Samizdat, Crônicas Cariocas, Revista portuguesa TriploV e Amaité Poesia & Cia.

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, Heteronímia e Inventário Poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

 

www.miltoncarlosrezende.com.br

www.estantedopoetaedoescritor.blogspot.com.br

 

 

 


domingo, 13 de abril de 2025

MEUS E-BOOKS 3

Trata-se de uma coletânea de diversos poemas que giram todos em torno dos cemitérios e seus mistérios. Daí seu caráter um tanto mórbido e ao mesmo tempo com um fator  filosófico que permeia toda a escrita do autor Milton Rezende.

Para quem aprecia uma literatura meio clássica e meio gótica encoberta por um pano de fundo paranormal e sobrenatural, com seus rituais sombrios: assombrações, suicídios, necrofilia e loucuras do além túmulo, donde se pode perguntar: o que acontece em um cemitério? Como numa procissão macabra de pessoas e seres que entravam e saiam deste cemitério, vagando e perambulando em meio a podridão num ambiente lúgubre, cinzento e melancólico.

O autor  desenvolve o tema numa linguagem enxuta, às vezes rebuscada, mas direta e podíamos até dizer um tanto clássica, apesar de ser intensa e sutil ao mesmo tempo que nos remete a  autores como Augusto dos Anjos, Edgar Alan Poe e Lovecraft.

Saltando as grades deste cemitério podemos observar pessoas bêbadas, perdidas, extraviadas de si mesmas e que buscam como numa mágica desvendar os mistérios neste ambiente onde o hálito da morte com seus cheiros nauseabundos transmitem uma energia singular.

Neste ambiente escuro e chuvoso, triste e melancólico torna-se crucial, como num paradoxo de existir, onde ainda podemos encontrar flores, coqueiros e ninhos de pássaros agourentos ou não.

 

Milton Rezende, e-book publicado pela Kindle/Amazon em 2023