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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

NAS ÁGUAS DO RIO


 

Aquele teu short de estrelas

não saiu de minha constelação mental,

em que eu te vislumbrava nítida e nua

e na noite o teu perfume se misturava

aos perfumes da noite, tornando-a impregnada

de um conteúdo que era ao mesmo tempo

ferino e feminino e ardente.

Lembrança de água barrenta na boca

e o teu corpo exposto que estava

ao papel transparente do sol sobre o tecido.

 


segunda-feira, 24 de outubro de 2022

ANTOLOGIA POÉTICA - LITERÁRIA I


 

Finalmente a ideia de se organizar uma “Antologia Poética” do poeta ervalense Milton Rezende.  Foram 7 livros de poesia publicados no intervalo que vai de 1986 a 2017. Portanto mais de 30 anos de estrada literária. Aqui, neste volume, estão reunidos 184 poemas bastante expressivos e representativos do seu itinerário poético e escolhidos dentre todos os seus livros publicados. Tendo, inclusive, quatro poemas inéditos do livro igualmente inédito “Da Essencialidade da Água”.

O critério escolhido para a seleção dos poemas foi o de usar como base o livro “Tempo de Poesia: Intertextualidade, Heteronímia e Inventário Poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos que disserta sobre a obra do autor e também em outras fontes e meios literários no Brasil e alguns até no exterior que divulgaram seus trabalhos poéticos. Portanto são poemas que já passaram pelo crivo e pelas análises de outras pessoas, além do próprio autor.

Num universo total que gira em torno de uns 410 poemas, esta coletânea apresenta mais da metade de tudo que o poeta escreveu ao longo destas três décadas, portanto um painel bastante representativo onde o leitor poderá encontrar uma amostra consistente do que representa o legado deste escritor que é tido como uma espécie de celebridade rural, quase desconhecida e escondido nas montanhas de Minas Gerais, mas “de grande influência no cerco artístico-literário da Zona da Mata Mineira na década de 1980, de onde, com certeza, é um dos principais nomes da Literatura Contemporânea”(F.A.)

 

www.miltoncarlosrezende.com.br

 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

A RESPEITO DO BLOG

 A literatura é um troço engraçado, por mais que a gente faça fica sempre um vazio na receptividade, como se fosse uma pista de mão única. entretanto cabe-nos caminhar por esta estrada deserta e iluminada. um dos clarões da lua aponta para um pequeno blog. convido alguns transeuntes a darem uma olhada e a seguir, mesmo porque não custa nada.

domingo, 14 de agosto de 2022

A propósito de "O privilégio dos mortos", de Whisner Fraga


agosto 14, 2022

Por Milton Rezende

 

O filme “Bonitinha, mas ordinária”, um clássico do cinema nacional, com bela atuação do saudoso José Wilker e inspirado na célebre peça de Nelson Rodrigues. Mas o bordão/ideia-fixa do filme, que foi repetido diversas vezes pelo personagem Edgard, é “O mineiro só é solidário no câncer”, frase atribuída a Otto Lara Resende.

Esta frase tornou-se icônica, mas não é bem verdade. Entretanto dita pelo ator José Wilker  com tanta e especial ênfase  que eu me recordo até hoje, donde se depreende que a ênfase é tudo. O próprio Drummond tem um verso neste sentido ao dizer “as coisas/que triste são as coisas consideradas sem ênfase” ( in A Flor e a  Náusea).

Então, para todos os efeitos, tornou-se realmente verdade que o mineiro só é solidário no câncer. Por extensão poderíamos dizer, alargando o seu horizonte e seu alcance que “O brasileiro só é solidário no câncer”. Aliás, eu acho que é assim que se encontra no filme, não tenho bem certeza.

No romance de Whisner Fraga “o privilégio dos mortos”, publicado pela Editora Patuá no ano de 2019, tem muito disso, pois trata-se de um romance composto, todo ele, de frases poéticas, algumas de efeito. Poder-se-ia dizer, exagerando um pouco, já que o livro é extenso, com 250 páginas, que é um longo poema em prosa. Mas não. São frases poéticas mesmo, soltas, avulsas, lapidares, como pássaros esvoaçantes, em todo o corpo do livro. Você pode ir pinçando aqui e acolá a seu bel prazer, estas frases, helena.

O narrador, de passagem por Tejuco, sua cidade natal, retornando a ela diz: “fui até a rua seis e, a poucos passos do portão verde da casa em que meu amigo morou, ainda estava em dúvida se devia  gritar por ele ou não”. E foi assim que o personagem-narrador “começou a questionar a sua morte”, a morte do seu amigo heitor. E para ele, o narrador, “o processo só se completa quando eu contemplo o cadáver, quando atesto, que a pessoa abandonou, de fato, esse mundo”. “e eu não queria enlouquecer, pois os loucos sofrem demais, helena.

Mais adiante o narrador segue introjetando a perda do amigo à sombra de sua cidade natal Tejuco.

“e na noite anterior, helena, eu vinha cansado de outros juízos e não consegui, por um momento, acatar as pistas da lógica e depois, depois, helena, convivia com essa excentricidade: eu precisava ver o corpo, eu precisava tocar o frio, a ausência, a rigidez, para me certificar do fim e foi isso que se deu, certamente foi isso, porque eu havia deixado Tejuco e presenciei a morte de meu amigo, apenas naquela folha a-quatro descorada, que anunciava a missa de sétimo dia”.

 

“o pânico é uma necessidade de deserção”.

 

E o narrador do livro, num paroxismo de álcool e de delírio, desenterra o seu amigo heitor. Este romance é feito, todo ele, assim: não há um enredo definido e obedece ao fluxo de consciência do narrador/autor.

Outro recurso utilizado, além de ser escrito totalmente em letras minúsculas, até para nomes próprios, é a inserção da “personagem” helena, sempre citada ao longo do livro, dando a ele uma coloquialidade e uma fluidez tremenda. Verdadeiramente um achado literário, não é mesmo, helena?

É quando, afinal, e ao final do livro, a turma chega ao cemitério de Tejuco para celebrar a morte do amigo heitor. E eles são alguns e a turma entre excitada e embriagada, pois embriaguez e sensualidade é o que de melhor define a morte, desde os filmes do Nosferatu, de Marnau, com excepcional interpretação de Max Schreck,  quando ele sobe as escadas do imponderável e do inevitável. E então esta turma suborna o coveiro com uma garrafa de cachaça e vão todos celebrar a Morte, a morte do amigo heitor e numa “evasão” erótica de corpos despindo de suas vestes e dançando sobre as tumbas, que nem observam quando o narrador do romance se distancia uns quinze metros rumo ao túmulo do seu amigo heitor e o desenterra e, abrindo o caixão, abraça o cadáver do amigo “vendo e sentindo o corpo do seu amigo inchado, seu amigo incompleto, seu amigo carcomido, seu amigo escurecido e sente vontade de abraçá-lo, de  beijá-lo como fazem aqueles que se despedem e o puxa para perto, sentindo tudo que eventualmente fora pele, que fora carne, que fora músculo, que fora união, cola nele e, mesmo enojado, avança seus lábios e aproxima a cabeça do seu peito e sente medo de que tudo desmorone, tem medo que algo que já tenha sido ele, heitor, esteja por perto e não goste daquele carinho, de forma que tenta não amarotar o terno cinza...” e se despede do seu amigo indagando:  “o experimento de deus tem prazo de validade?”

 

                          “a proximidade da morte fortalece minha fé,

                                         o que me resta senão isso?

                                                  resta-lhe o mundo.

                                                       e a esperança?

                                                    a esperança não.”

Acontece nos Livros Milton Rezende

 

quinta-feira, 30 de junho de 2022

OUTRO SILVA IS DEAD


 

“saí para me divertir,

                                                               acabei num enterro.

                                                               um parente distante.”

                                                                                                              (Dostoiévski)

 

Eu não sabia até então. Sexta-feira de chuva fina e o colapso do mundo sendo alardeado por todos e em tudo quanto é canto. Desliguei-me das pessoas mais em função disso, pois preferia a visão das nuvens e dos pássaros que eu alimentava como se estivesse longe. Não estava. A realidade me cerceava e eu saí para encher a cara. Num pequeno beco sem saída havia um boteco e logo em frente o cemitério.

            Entre um gole e outro passou o cortejo fúnebre e resolvi acompanhar. Durante o percurso fui informado que se tratava da morte de um sujeito conhecido como “Outro Silva”, aliás, pouco conhecido, a julgar pelo nome. Afinal são tantos silvas que um silva a mais ou um a menos não faria, àquela altura, muita diferença. Como se fosse um silvo no deserto.

            Devido a esta singularidade do nome do defunto, resolvi acompanhá-lo até sua última morada e no trajeto tentaria saber mais sobre o cadáver. Entabulei conversação com um senhor de meia-idade que estava do meu lado, julgando que fossem parentes. Na verdade só trabalhavam juntos num escritório mixuruca de contabilidade e redação de textos para jornais.

            Alexandre Barret era o nome da pessoa com a qual eu falava. Indagado a respeito do falecido disse-me que o “Outro Silva” era um homem estranho como o próprio nome, mas davam-se bem no serviço diário onde se encontravam como empregados de um proprietário, que morava numa cidade distante e repassava as suas ordens por telefone ou por e-mail.

            Numa dessas ordens foi que o “Outro Silva” se destacou, produzindo sob encomenda seu único texto re/conhecido: “Gênese de um nome e de um livro”, que acabou sendo publicado como apresentação ao livro “Textos e Ensaios”, do escritor mineiro Milton Rezende.

            “Depois disso, apesar da pequena repercussão favorável aos seus escritos, não produziu mais nada que eu saiba e entrou assim numa espécie de recesso das ideias”, disse-me o Barret sobre o seu finado amigo, quando já ultrapassávamos o portão de grades da entrada do cemitério. Poucas pessoas acompanhavam o cortejo, pois atualmente já não se usa muito celebrar os rituais da morte e ela, esvaziada do seu contexto histórico, aninhou-se no subconsciente humano produzindo ali estragos ainda maiores de quando era uma senhora respeitada na sociedade.

            A causa da morte do “Outro Silva”, conforme atestado de óbito assinado pelo médico plantonista, Dr. Carlos Águia, teria ocorrido em função de “insuficiência respiratória aguda, edema agudo do pulmão, infarto agudo do miocárdio e hipertensão arterial sistêmica”. Contava 47 anos.

            Foi enterrado ao lado do finado Tibúrcio Soledade que, segundo consta, teria sepultado a si mesmo no quintal de sua própria casa numa crise de identidade. Mais tarde seu corpo foi transladado para este cemitério e agora jazem os dois em covas rasas, esquecidos de si mesmos e dos homens com os quais haviam convivido.

            Despedi-me do Alexandre Barret na saída e uma vaga nuvem de tristeza rondava-me os olhos lacrimejantes. Voltei ao boteco do beco para celebrar a continuidade da vida num ninho de passarinho que eu vira construído no coqueiro ao lado do túmulo do “Outro Silva”.

            Sobre a mesa do bar estava um exemplar do Diário de Notícias, estampando em letras garrafais a corrupção nossa de cada dia e a cara dos políticos escarnecendo das nossas caras de otários. Um sujeito passou na rua de carro e deu para acompanhar o refrão da música de rap que tocava através do pen drive: “era só mais um silva que a estrela não brilha”.

 

 

 

           

terça-feira, 10 de maio de 2022

FUNDAÇÃO HERVAL


 

ESTRADA DE BERALDES, MG.


 

CARICATURA


 

CARTAZ


 

DESCOBRINDO ESCRITORES


 

A PORTA DA CASA DO ANDARILHO


 

E-BOOK


 

O PISO DA MINHA ALMA


 

terça-feira, 22 de março de 2022

Comentário sobre o livro Anímica

 

MILTON REZENDE

-

Há quatro ou cinco anos, recebi um livro dele e lhe pedi desculpas porque me pareceu muito pesado para o momento que atravessava: o do câncer que acabaria por levar meu filho. Agora, quando emendamos a pandemia à infame guerra da Rússia contra a Ucrânia, amargando um nosso governo que chega a ser sinistro, recebo ANÍMICA, novo livro de MILTON REZENDE – editado pela Penalux – cuja primeira parte, “Coletânea Cemiterial” – abre com o poema “Na Lápide de Augusto dos Anjos", em que se lê que

“seus versos (...) subsistiram aos vermes

que agora me espreitam”.

Minha reação me mostra que meu problema persiste. Dói, ler, em “A sentinela que fica”, que

“Existe uma imensa solidão em mim”.

Mais adiante,  “Velório” me faz engolir em seco:

-

“O defunto estava com as mãos cruzadas sobre o peito.

Flores cobriam todo seu corpo e o rosto estava lívido.

Os braços eram demasiado magros e cadavéricos”.

-

O efeito Edgar Allan Poe sobre Augusto dos Anjos, fora repassado para Milton Rezende, mesmo sem a linguagem científica e de ritmo contundente do paraibano. Mas... com beleza. Veja este “Poema retirado de uma lápide”:

-

“No cemitério de Perdões

Laura Alvarenga descansa.

Moça bonita de 19 anos.

Falecida em 1920.

Sentada numa cadeira,

com um grande laço

de fita nos cabelos

e uns braços que talvez

nem mesmo Machado

sonharia descrever em

seus contos de Assis.

Laura Alvarenga

de 19 anos de idade

e seus olhos de Capitu.

Uma fisionomia pensativa

e meio triste de quem não

antevia a sua própria morte,

que chegaria tão cedo.

Na sua lápide está escrito:

“Saudade eterna de seus Paes

E irmãos. 87 anos depois

eu contemplo a sua fotografia

num livro de pesquisa e penso

que gostaria de tê-la conhecido.

O que sabemos nós da vida?”

-

Na segunda parte vêm suas “Poesias traduzidas”. A primeira, curta, é muito bonita:

-

ADIAMENTO

-

“Trago comigo meus poemas

que ainda não foram escritos,

simplesmente porque não se fizeram

e nem se recolheram à sua impossibilidade.

E vou deixando-os, portanto, para o dia

seguinte, para a manhã seguinte, para

a vida seguinte que não haverá.”

-

Augusto dos Anjos volta com tudo em EXPURGO:

-

 

“hoje eu mordi

Um chumaço de

Papel higiênico

Para estancar

( ou tentar conter )

O sangramento

Da língua dilacerada;

Como um cadáver

Antecipado que devora

O seu próprio sudário.”

-

Na parte denominada POEMAS SEQUENCIAIS, MILTON REZENDE traça quatro AUTORRETRATOS. Diz, no começo do primeiro:

-

“Eu não sou somente

Este rosto jovem

Sou também

Este corpo magro

Estes pulmões doentes

Este ser descrente.”

-

No começo do segundo:

-

“Eu sou aquele

Que teve de vender

A alma ao diabo

Para ser publicado;

Eu sou aquele

Que teve de vomitar

O próprio sangue

Para se fazer aceitável”

-

Fico nesta lembrança d"O Grito", de Munch:

-

Há um grito

Em mim

Que não distingo

Do grito

Que ouço além

Da minha surdez”.

-

Milton Rezende. Apesar de continuar de luto - pelo filho, pelos ucranianos, pelos brasileiros - e talvez por isso mesmo, desta vez, eu o li. Ainda bem.

-

Waldemar José Solha

 

 

Comentário sobre o livro Anímica


Milton,

meu camarada, como a nossa literatura diz muito de nós mesmos, vejo na sua Anímica um grito que sufoca a euforia das palavras para encontrar no silêncio a resposta aos barulhos que o mundo nos empurra goela abaixo como se isso fosse uma faca a nos cortar as entranhas e uma orquestra de órgãos humanos saltasse de dentro de nós para tocar sobre nossa matéria uma valsa fazendo os ossos bailarem sobre a fantasmagórica forma de estar/ser no(o) mundo. Sua poesia e sua prosa, meu caro, me fizeram lembrar Manuel Bandeira abraçado ao silêncio dos dias para aquecer sua solidão. Sua  Anímica é a orquestra que toca o ritmo empreendido à vida.

Jonas Pessoa.

sábado, 19 de março de 2022

O escritor brasileiro contemporâneo lê os seus pares?

 O escritor brasileiro contemporâneo lê os seus pares? youtu.be/JrCBhQeI310 via 

youtube.com    

O escritor brasileiro contemporâneo lê os seus pares?