sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
quinta-feira, 3 de novembro de 2022
NAS ÁGUAS DO RIO
Aquele
teu short de estrelas
não
saiu de minha constelação mental,
em que
eu te vislumbrava nítida e nua
e na
noite o teu perfume se misturava
aos
perfumes da noite, tornando-a impregnada
de um
conteúdo que era ao mesmo tempo
ferino
e feminino e ardente.
Lembrança
de água barrenta na boca
e o
teu corpo exposto que estava
ao
papel transparente do sol sobre o tecido.
segunda-feira, 24 de outubro de 2022
ANTOLOGIA POÉTICA - LITERÁRIA I
Finalmente
a ideia de se organizar uma “Antologia Poética” do poeta ervalense Milton
Rezende. Foram 7 livros de poesia
publicados no intervalo que vai de 1986 a 2017. Portanto mais de 30 anos de
estrada literária. Aqui, neste volume, estão reunidos 184 poemas bastante
expressivos e representativos do seu itinerário poético e escolhidos dentre
todos os seus livros publicados. Tendo, inclusive, quatro poemas inéditos do
livro igualmente inédito “Da Essencialidade da Água”.
O
critério escolhido para a seleção dos poemas foi o de usar como base o livro “Tempo
de Poesia: Intertextualidade, Heteronímia e Inventário Poético em Milton
Rezende”, de Maria José Rezende
Campos que disserta sobre a obra do autor e também em outras fontes e meios
literários no Brasil e alguns até no exterior que divulgaram seus trabalhos
poéticos. Portanto são poemas que já passaram pelo crivo e pelas análises de
outras pessoas, além do próprio autor.
Num
universo total que gira em torno de uns 410 poemas, esta coletânea apresenta mais
da metade de tudo que o poeta escreveu ao longo destas três décadas, portanto
um painel bastante representativo onde o leitor poderá encontrar uma amostra consistente
do que representa o legado deste escritor que é tido como uma espécie de
celebridade rural, quase desconhecida e escondido nas montanhas de Minas Gerais,
mas “de grande influência no cerco artístico-literário da Zona da Mata Mineira
na década de 1980, de onde, com certeza, é um dos principais nomes da
Literatura Contemporânea”(F.A.)
www.miltoncarlosrezende.com.br
quinta-feira, 18 de agosto de 2022
A RESPEITO DO BLOG
A literatura é um troço engraçado, por mais que a gente faça fica sempre um vazio na receptividade, como se fosse uma pista de mão única. entretanto cabe-nos caminhar por esta estrada deserta e iluminada. um dos clarões da lua aponta para um pequeno blog. convido alguns transeuntes a darem uma olhada e a seguir, mesmo porque não custa nada.
domingo, 14 de agosto de 2022
A propósito de "O privilégio dos mortos", de Whisner Fraga
Por Milton Rezende
O
filme “Bonitinha, mas ordinária”, um clássico do cinema nacional, com bela
atuação do saudoso José Wilker e inspirado na célebre peça de Nelson Rodrigues.
Mas o bordão/ideia-fixa do filme, que foi repetido diversas vezes pelo
personagem Edgard, é “O mineiro só é solidário no câncer”, frase
atribuída a Otto Lara Resende.
Esta
frase tornou-se icônica, mas não é bem verdade. Entretanto dita pelo ator José
Wilker com tanta e especial ênfase que eu me recordo até
hoje, donde se depreende que a ênfase é tudo. O próprio Drummond tem um verso
neste sentido ao dizer “as coisas/que triste são as coisas consideradas sem
ênfase” ( in A Flor e a Náusea).
Então,
para todos os efeitos, tornou-se realmente verdade que o mineiro só é solidário
no câncer. Por extensão poderíamos dizer, alargando o seu horizonte e seu
alcance que “O brasileiro só é solidário no câncer”. Aliás, eu acho
que é assim que se encontra no filme, não tenho bem certeza.
No
romance de Whisner Fraga “o privilégio dos mortos”, publicado pela Editora
Patuá no ano de 2019, tem muito disso, pois trata-se de um romance composto,
todo ele, de frases poéticas, algumas de efeito. Poder-se-ia dizer, exagerando
um pouco, já que o livro é extenso, com 250 páginas, que é um longo poema em
prosa. Mas não. São frases poéticas mesmo, soltas, avulsas, lapidares, como
pássaros esvoaçantes, em todo o corpo do livro. Você pode ir pinçando aqui e
acolá a seu bel prazer, estas frases, helena.
O
narrador, de passagem por Tejuco, sua cidade natal, retornando a ela diz: “fui
até a rua seis e, a poucos passos do portão verde da casa em que meu amigo morou,
ainda estava em dúvida se devia gritar por ele ou não”. E foi assim
que o personagem-narrador “começou a questionar a sua morte”, a morte do seu
amigo heitor. E para ele, o narrador, “o processo só se completa quando eu
contemplo o cadáver, quando atesto, que a pessoa abandonou, de fato, esse
mundo”. “e eu não queria enlouquecer, pois os loucos sofrem demais, helena.
Mais
adiante o narrador segue introjetando a perda do amigo à sombra de sua cidade
natal Tejuco.
“e
na noite anterior, helena, eu vinha cansado de outros juízos e não consegui,
por um momento, acatar as pistas da lógica e depois, depois, helena, convivia
com essa excentricidade: eu precisava ver o corpo, eu precisava tocar o frio, a
ausência, a rigidez, para me certificar do fim e foi isso que se deu,
certamente foi isso, porque eu havia deixado Tejuco e presenciei a morte de meu
amigo, apenas naquela folha a-quatro descorada, que anunciava a missa de sétimo
dia”.
“o
pânico é uma necessidade de deserção”.
E
o narrador do livro, num paroxismo de álcool e de delírio, desenterra o seu
amigo heitor. Este romance é feito, todo ele, assim: não há um enredo definido
e obedece ao fluxo de consciência do narrador/autor.
Outro
recurso utilizado, além de ser escrito totalmente em letras minúsculas, até
para nomes próprios, é a inserção da “personagem” helena, sempre citada ao
longo do livro, dando a ele uma coloquialidade e uma fluidez tremenda.
Verdadeiramente um achado literário, não é mesmo, helena?
É
quando, afinal, e ao final do livro, a turma chega ao cemitério de Tejuco para
celebrar a morte do amigo heitor. E eles são alguns e a turma entre excitada e
embriagada, pois embriaguez e sensualidade é o que de melhor define a morte,
desde os filmes do Nosferatu, de Marnau, com excepcional interpretação de Max
Schreck, quando ele sobe as escadas do imponderável e do inevitável.
E então esta turma suborna o coveiro com uma garrafa de cachaça e vão todos
celebrar a Morte, a morte do amigo heitor e numa “evasão” erótica de corpos
despindo de suas vestes e dançando sobre as tumbas, que nem observam quando o
narrador do romance se distancia uns quinze metros rumo ao túmulo do seu amigo
heitor e o desenterra e, abrindo o caixão, abraça o cadáver do amigo
“vendo e sentindo o corpo do seu amigo inchado, seu amigo incompleto, seu amigo
carcomido, seu amigo escurecido e sente vontade de abraçá-lo,
de beijá-lo como fazem aqueles que se despedem e o puxa para perto,
sentindo tudo que eventualmente fora pele, que fora carne, que fora músculo,
que fora união, cola nele e, mesmo enojado, avança seus lábios e aproxima a
cabeça do seu peito e sente medo de que tudo desmorone, tem medo que algo que
já tenha sido ele, heitor, esteja por perto e não goste daquele carinho, de
forma que tenta não amarotar o terno cinza...” e se despede do seu amigo
indagando: “o experimento de deus tem prazo de validade?”
“a proximidade da morte fortalece minha fé,
o
que me resta senão isso?
resta-lhe
o mundo.
e
a esperança?
a
esperança não.”
Acontece nos Livros Milton Rezende
quinta-feira, 30 de junho de 2022
OUTRO SILVA IS DEAD
“saí para me divertir,
acabei
num enterro.
um
parente distante.”
(Dostoiévski)
Eu não sabia até
então. Sexta-feira de chuva fina e o colapso do mundo sendo alardeado por todos
e em tudo quanto é canto. Desliguei-me das pessoas mais em função disso, pois
preferia a visão das nuvens e dos pássaros que eu alimentava como se estivesse
longe. Não estava. A realidade me cerceava e eu saí para encher a cara. Num
pequeno beco sem saída havia um boteco e logo em frente o cemitério.
Entre um gole e outro passou o
cortejo fúnebre e resolvi acompanhar. Durante o percurso fui informado que se
tratava da morte de um sujeito conhecido como “Outro Silva”, aliás, pouco
conhecido, a julgar pelo nome. Afinal são tantos silvas que um silva a mais ou
um a menos não faria, àquela altura, muita diferença. Como se fosse um silvo no
deserto.
Devido
a esta singularidade do nome do defunto, resolvi acompanhá-lo até sua última
morada e no trajeto tentaria saber mais sobre o cadáver. Entabulei conversação
com um senhor de meia-idade que estava do meu lado, julgando que fossem
parentes. Na verdade só trabalhavam juntos num escritório mixuruca de
contabilidade e redação de textos para jornais.
Alexandre
Barret era o nome da pessoa com a qual eu falava. Indagado a respeito do
falecido disse-me que o “Outro Silva” era um homem estranho como o próprio
nome, mas davam-se bem no serviço diário onde se encontravam como empregados de
um proprietário, que morava numa cidade distante e repassava as suas ordens por
telefone ou por e-mail.
Numa
dessas ordens foi que o “Outro Silva” se destacou, produzindo sob encomenda seu
único texto re/conhecido: “Gênese de um nome e de um livro”, que acabou sendo
publicado como apresentação ao livro “Textos e Ensaios”, do escritor mineiro
Milton Rezende.
“Depois
disso, apesar da pequena repercussão favorável aos seus escritos, não produziu
mais nada que eu saiba e entrou assim numa espécie de recesso das ideias”,
disse-me o Barret sobre o seu finado amigo, quando já ultrapassávamos o portão
de grades da entrada do cemitério. Poucas pessoas acompanhavam o cortejo, pois
atualmente já não se usa muito celebrar os rituais da morte e ela, esvaziada do
seu contexto histórico, aninhou-se no subconsciente humano produzindo ali
estragos ainda maiores de quando era uma senhora respeitada na sociedade.
A
causa da morte do “Outro Silva”, conforme atestado de óbito assinado pelo
médico plantonista, Dr. Carlos Águia, teria ocorrido em função de “insuficiência
respiratória aguda, edema agudo do pulmão, infarto agudo do miocárdio e
hipertensão arterial sistêmica”. Contava 47 anos.
Foi
enterrado ao lado do finado Tibúrcio Soledade que, segundo consta, teria
sepultado a si mesmo no quintal de sua própria casa numa crise de identidade. Mais
tarde seu corpo foi transladado para este cemitério e agora jazem os dois em
covas rasas, esquecidos de si mesmos e dos homens com os quais haviam
convivido.
Despedi-me
do Alexandre Barret na saída e uma vaga nuvem de tristeza rondava-me os olhos
lacrimejantes. Voltei ao boteco do beco para celebrar a continuidade da vida
num ninho de passarinho que eu vira construído no coqueiro ao lado do túmulo do
“Outro Silva”.
Sobre
a mesa do bar estava um exemplar do Diário de Notícias, estampando em letras
garrafais a corrupção nossa de cada dia e a cara dos políticos escarnecendo das
nossas caras de otários. Um sujeito passou na rua de carro e deu para
acompanhar o refrão da música de rap que tocava através do pen drive: “era só
mais um silva que a estrela não brilha”.
terça-feira, 10 de maio de 2022
quinta-feira, 7 de abril de 2022
segunda-feira, 28 de março de 2022
terça-feira, 22 de março de 2022
Comentário sobre o livro Anímica
MILTON REZENDE
-
Há quatro
ou cinco anos, recebi um livro dele e lhe pedi desculpas porque me pareceu
muito pesado para o momento que atravessava: o do câncer que acabaria por levar
meu filho. Agora, quando emendamos a pandemia à infame guerra da Rússia contra
a Ucrânia, amargando um nosso governo que chega a ser sinistro, recebo ANÍMICA,
novo livro de MILTON REZENDE – editado pela Penalux – cuja
primeira parte, “Coletânea Cemiterial” – abre com o poema “Na Lápide de Augusto
dos Anjos", em que se lê que
“seus
versos (...) subsistiram aos vermes
que agora
me espreitam”.
Minha
reação me mostra que meu problema persiste. Dói, ler, em “A sentinela que
fica”, que
“Existe
uma imensa solidão em mim”.
Mais
adiante, “Velório” me faz engolir em
seco:
-
“O
defunto estava com as mãos cruzadas sobre o peito.
Flores
cobriam todo seu corpo e o rosto estava lívido.
Os braços
eram demasiado magros e cadavéricos”.
-
O efeito
Edgar Allan Poe sobre Augusto dos Anjos, fora repassado para Milton Rezende,
mesmo sem a linguagem científica e de ritmo contundente do paraibano. Mas...
com beleza. Veja este “Poema retirado de uma lápide”:
-
“No
cemitério de Perdões
Laura
Alvarenga descansa.
Moça
bonita de 19 anos.
Falecida
em 1920.
Sentada
numa cadeira,
com um
grande laço
de fita
nos cabelos
e uns braços
que talvez
nem mesmo
Machado
sonharia
descrever em
seus
contos de Assis.
Laura
Alvarenga
de 19
anos de idade
e seus
olhos de Capitu.
Uma
fisionomia pensativa
e meio
triste de quem não
antevia a
sua própria morte,
que
chegaria tão cedo.
Na sua lápide
está escrito:
“Saudade
eterna de seus Paes
E irmãos.
87 anos depois
eu
contemplo a sua fotografia
num livro
de pesquisa e penso
que
gostaria de tê-la conhecido.
O que
sabemos nós da vida?”
-
Na
segunda parte vêm suas “Poesias traduzidas”. A primeira, curta, é muito bonita:
-
ADIAMENTO
-
“Trago
comigo meus poemas
que ainda
não foram escritos,
simplesmente
porque não se fizeram
e nem se
recolheram à sua impossibilidade.
E vou
deixando-os, portanto, para o dia
seguinte,
para a manhã seguinte, para
a vida
seguinte que não haverá.”
-
Augusto
dos Anjos volta com tudo em EXPURGO:
-
“hoje eu
mordi
Um
chumaço de
Papel
higiênico
Para
estancar
( ou
tentar conter )
O
sangramento
Da língua
dilacerada;
Como um
cadáver
Antecipado
que devora
O seu
próprio sudário.”
-
Na parte
denominada POEMAS SEQUENCIAIS, MILTON REZENDE traça quatro AUTORRETRATOS. Diz,
no começo do primeiro:
-
“Eu não
sou somente
Este
rosto jovem
Sou
também
Este
corpo magro
Estes
pulmões doentes
Este ser
descrente.”
-
No começo
do segundo:
-
“Eu sou
aquele
Que teve
de vender
A alma ao
diabo
Para ser
publicado;
Eu sou
aquele
Que teve
de vomitar
O próprio
sangue
Para se
fazer aceitável”
-
Fico
nesta lembrança d"O Grito", de Munch:
-
Há um
grito
Em mim
Que não
distingo
Do grito
Que ouço além
Da minha
surdez”.
-
Milton
Rezende. Apesar de continuar de luto - pelo filho, pelos ucranianos, pelos
brasileiros - e talvez por isso mesmo, desta vez, eu o li. Ainda bem.
-
Waldemar José Solha
Comentário sobre o livro Anímica
Milton,
meu camarada, como a nossa literatura
diz muito de nós mesmos, vejo na sua Anímica um grito que sufoca
a euforia das palavras para encontrar no silêncio a resposta aos barulhos que o
mundo nos empurra goela abaixo como se isso fosse uma faca a nos cortar as
entranhas e uma orquestra de órgãos humanos saltasse de dentro de nós para
tocar sobre nossa matéria uma valsa fazendo os ossos bailarem sobre a
fantasmagórica forma de estar/ser no(o) mundo. Sua poesia e sua prosa, meu
caro, me fizeram lembrar Manuel Bandeira abraçado ao silêncio dos dias para
aquecer sua solidão. Sua Anímica
é a orquestra que toca o ritmo empreendido à vida.
Jonas Pessoa.
sábado, 19 de março de 2022
O escritor brasileiro contemporâneo lê os seus pares?
O escritor brasileiro contemporâneo lê os seus pares? https://youtu.be/JrCBhQeI310 via









