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sexta-feira, 12 de maio de 2023

UMA PERGUNTA PARA O POETA E ESCRITOR MILTON REZENDE



P: Canal Acontece nos Livros - Whisner Fraga.

Milton, fale um pouco sobre o seu processo criativo.


Meu projeto literário, enquanto planejamento, pode-se dizer que iniciou com a publicação do meu primeiro livro O Acaso das Manhãs (1986). Comecei a escrever aos 13 anos de idade, mas eram esboços, etapas de um aprendizado. Eu enchia cadernos e mais cadernos com manuscritos e depois várias pastas datilografadas, mas aos 20 anos queimei todos eles, pois achava que já era hora de encarar a literatura mais a sério.

Entretanto, de vez em quando, retornam à minha memória alguns daqueles versos e eu sinto nostalgia daquela espontaneidade que o tempo fez questão de sepultar. Eu lia muito por esta época, mais do que eu leio atualmente e meus autores preferidos foram se consolidando até chegar a esta tríade que me acompanha até hoje: Drummond, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos.

Mas há outros, não menos importantes, como o Bandeira, o Graciliano Ramos, Edgar Alan Poe, H.P. Lovecraft, entre tantos.

Eu reviso muitas vezes os meus escritos, acho isso fundamental, principalmente para autores que, como eu, não submete os seus textos a ninguém antes de serem publicados. portanto eles não devem ter palavras faltando nem sobrando e esta é a minha única medida. Mas mesmo assim é preciso esperar algum tempo pela decantação do texto porque “a literatura é a emoção recolhida em tranquilidade”, no dizer do autor inglês W. Wordsworth.

E entendo a literatura como registros, retratos de si,  pistas que deixamos como pegadas na areia de uma posteridade que, provavelmente, ninguém irá notar.

Quanto a linguagem eu prefiro uma que seja enxuta, direta, sem rodeios. “sua forma de escrever é ácida, sem concessões. seus poemas são mordazes, incrivelmente corajosos. ele nunca poupa a si mesmo nem ao mundo. Milton vem da melhor tradição da poesia e prossegue com ela” (M.S).

os meus temas predominantes são a solidão, o amor e a morte. Tudo o que foi retido no território bruto e confuso da memória, reminiscências, revolta e um pouco de ternura. 

Minhas preferências são várias, mas de um modo específico, muitas delas giram em torno da morte, dos cemitérios, figuras estranhas e insólitas permeadas por um fator sobrenatural e um fator filosófico. Como de resto em toda a minha poética, esses fatores.

Em 2013 foi defendida e aprovada pela Universidade Federal de Juiz de Fora e depois, já em 2015, publicada em livro a dissertação de mestrado de Maria José Rezende Campos intitulada “Tempo de poesia: intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, constituindo assim na primeira publicação a tratar da fortuna crítica do autor.

Finalmente eu tenho ainda mais alguns, poucos, projetos literários na cabeça, pelo menos em esboço que espero concluir. De qualquer forma pretendo chegar a um ponto onde eu possa pelo menos suster o meu processo criativo e dar por encerrada a minha atividade literária. Talvez mais uns quatro volumes e já estará de bom tamanho. Ainda nesse ano de 2022 sairá o meu livro ANÍMICA (no prelo) e depois, quem sabe conseguir publicar a minha Antologia Poética. Feito isso ficarão faltando, eu acho, mais dois livros para encerrar. Ciao!                            

Gênese: neste texto eu digo “autores que, como eu, não submete os seus textos a ninguém antes de serem publicados.”

isso, no meu caso, é mesmo verdade, exceção feita a “Mais uma xícara de café”. A composição e a escrita deste livro foi algo sui generis que, em mim, não vai se repetir. Mesmo porque, por problemas de saúde, hoje eu já não bebo e tudo o que escrevo é “a frio”.

Escrevi  “Mais uma xícara de café”, como digo no próprio decorrer do livro, basicamente sob os efeitos do álcool no organismo. Numa espécie de escrita que obedecia unicamente ao fluxo da consciência ou da sua inconsciência. Eu pretendia colocar em prática uma espécie de “escrita automática”, algo assim como abrir “As Portas Percepção”. Pois bem, fiz isso em geral no livro todo, mas é claro que no dia seguinte, sóbrio, eu relia todo o trecho e fazia meus apontamentos, correções, revisões e mesmo supressões ou alterações no texto escrito na noite anterior. Mas mantendo a sua essência, o seu fluxo e ritmo próprios.

Naturalmente, depois do original pronto, eu estava confuso e inseguro quanto ao resultado final. Se teria qualidades a ponto de eu decidir publicá-lo.

Assim sendo, pela primeira e única vez eu resolvi submetê-lo à opinião alheia na pessoa do poeta e escritor conterrâneo Marcelo Serodre, então meu amigo e a quem eu prezava sobremaneira a sua opinião literária. Não sem razão.

Então ele, após a leitura, escreveu-me um e-mail desancando o meu original, apontando-lhes inúmeros defeitos. Foi como um balde de água fria. Mas como eu respeitava seus conceitos e opiniões tive que agradecer-lhe pela leitura e os “palpites” que dera. Alguns eu achara pertinentes e outros nem tanto. Isso foi alguns anos antes de 2006/2007, quando da sua redação final e definitiva.

Coloquei os originais na gaveta para decantação e amadurecimento em mim. Lendo-o e relendo-o várias e repetidas vezes eu lhe achava qualidades apesar dos muitos defeitos. Resolvi então colocar as mãos na massa e modificar e reescrever alguns trechos ou passagens. Fiz um trabalho consciente e meticuloso e considerei-o “quase pronto” e acabado. E quando eu considero alguns dos meus livros prontos e acabados eu não mexo mais neles e essa segunda versão eu submeti à apreciação do grande poeta e tradutor Ivo Barroso, meu amigo e também conterrâneo de Ervália, Minas Gerais.

Dessa sua leitura e apreciação ainda surgiram pequenos ajustes aqui e acolá que eu fiz, mandando-o para a editora e ser, finalmente, publicado. Isso já era o ano de 2017. Portanto um longo percurso e espera que valeram a pena, pois foi muito bem recebido a ponto de o consagrado Ivo Barroso chama-lo de “livrão”. Assim o “Mais uma xícara de café” finalmente veio a lume.

www.miltoncarlosrezende.com.br

 

 

terça-feira, 9 de maio de 2023

A PROPÓSITO DE QUE "A LITERATURA NÃO VENDE"


 



Realmente, além de tudo isso referente às dificuldades do mercado livreiro, há ainda um grande silêncio envolvendo a literatura. Mesmo que você consiga publicar e divulgar a sua obra em sites, blogs e jornais a contrapartida geralmente é esse grande silêncio de que falei: ninguém comenta, ninguém critica e poucos são os que repassam ou divulgam o trabalho de outro escritor ou poeta. Mesmo entre aqueles (poucos) que adquirem um exemplar do livro, raramente alguém se dá ao trabalho de retornar de alguma forma, seja elogiando, criticando ou mesmo “descendo a lenha”. Então é isso: esse silêncio eloquente que precisamos vencer e que tem sido, muitas vezes, mais difícil do que conseguir a publicação do seu trabalho pelas editoras e a posterior tentativa de vendagem dos exemplares.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

A propósito de “o privilégio dos mortos” livro de Whisner Fraga




o filme “ Bonitinha, mas ordinária”, um clássico do cinema nacional, com bela atuação do saudoso José Wilker e inspirado na célebre peça de Nelson Rodrigues. Mas o bordão/ideia-fixa do filme, que foi repetido diversas vezes pelo personagem Edgard, é “O mineiro só é solidário no câncer”, frase atribuída a Otto Lara Resende.

Esta frase tornou-se icônica, mas não é bem verdade. Entretanto dita pelo ator José Wilker  com tanta e especial ênfase  que eu me recordo até hoje, donde se depreende que a ênfase é tudo. O próprio Drummond tem um verso neste sentido ao dizer “as coisas/que triste são as coisas consideradas sem ênfase” ( in A Flor e a  Náusea).

Então, para todos os efeitos, tornou-se realmente verdade que o mineiro só é solidário no câncer. Por extensão poderíamos dizer, alargando o seu horizonte e seu alcance que “O brasileiro só é solidário no câncer”. Aliás, eu acho que é assim que se encontra no filme, não tenho bem certeza.

No romance de Whisner Fraga “o privilégio dos mortos”, publicado pela Editora Patuá no ano de 2019, tem muito disso, pois trata-se de um romance composto, todo ele, de frases poéticas, algumas de efeito. Poder-se-ia dizer, exagerando um pouco, já que o livro é extenso com 250 páginas, que é um longo poema em prosa. Mas não. São frases poéticas mesmo, soltas, avulsas, lapidares, como pássaros esvoaçantes, em todo o corpo do livro. Você pode ir pinçando aqui e acolá a seu bel prazer, estas frases, helena.

O narrador, de passagem por Tejuco, sua cidade natal, retornando a ela diz: “fui até a rua seis e, a poucos passos do portão verde da casa em que meu amigo morou, ainda estava em dúvida se devia  gritar por ele ou não”. E foi assim que o personagem-narrador “começou a questionar a sua morte” a morte do seu amigo heitor. E para ele, o narrador, “o processo só se completa quando eu contemplo o cadáver, quando atesto, que a pessoa abandonou, de fato, esse mundo”. “e eu não queria enlouquecer, pois os loucos sofrem demais, helena.

Mais adiante o narrador segue introjetando a perda do amigo à sombra de sua cidade natal Tejuco.

“e na noite anterior, helena, eu vinha cansado de outros juízos e não consegui, por um momento, acatar as pistas da lógica e depois, depois, helena, convivia com essa excentricidade: eu precisava ver o corpo, eu precisava tocar o frio, a ausência, a rigidez, para me certificar do fim e foi isso que se deu, certamente foi isso, porque eu havia deixado Tejuco e presenciei a morte de meu amigo, apenas naquela folha a-quatro descorada, que anunciava a missa de sétimo dia”.

 

“o pânico é uma necessidade de deserção”.

 

E o narrador do livro, num paroxismo de álcool e de delírio desenterra o seu amigo heitor. Este romance é feito, todo ele, assim: não há um enredo definido e obedece ao fluxo de consciência do narrador/autor.

Outro recurso utilizado, além de ser escrito totalmente em letras minúsculas, até para nomes próprios é a inserção da “personagem” helena, sempre citada ao longo do livro, dando a ele uma coloquialidade e uma fluidez tremenda. Verdadeiramente um achado literário, não é mesmo, helena?

É quando afinal, e ao final do livro, a turma chega ao cemitério de Tejuco para celebrar a morte do amigo heitor. E eles são alguns e a turma entre excitada e embriagada, pois embriaguez e sensualidade é o que de melhor define a morte, desde os filmes do Nosferatu, de Marnau, com excepcional interpretação de Max Schreck,  quando ele sobe as escadas do imponderável e do inevitável. E então esta turma suborna o coveiro com uma garrafa de cachaça e vão todos celebrar a Morte, a morte do amigo heitor e numa “evasão” erótica de corpos despindo de suas vestes e dançando sobre as tumbas que nem observam quando o narrador do romance se distancia uns quinze metros rumo ao túmulo do seu amigo heitor e o desenterra e abrindo o  caixão abraça o cadáver do amigo “vendo e sentindo o corpo do seu amigo inchado, seu amigo incompleto, seu amigo carcomido, seu amigo escurecido e sente vontade de abraça-lo, de  beijá-lo como fazem aqueles que se despedem e o puxa para perto, sentindo tudo que eventualmente fora pele, que fora carne, que fora músculo, que fora união, cola nele e, mesmo enojado, avança seus lábios e aproxima a cabeça do seu peito e sente medo de que tudo desmorone, tem medo que algo que já tenha sido ele, heitor, esteja por perto e não goste daquele carinho, de forma que tenta não amarotar o terno cinza...” e se despede do seu amigo indagando:  “o experimento de deus tem prazo de validade?”

 

                         “a proximidade da morte fortalece minha fé,

                                         o que me resta senão isso?

                                                  resta-lhe o mundo.

                                                       e a esperança?

                                                    a esperança não.”