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segunda-feira, 22 de julho de 2024

BALADA DO HOMEM INVISÍVEL


Tenho 57 anos

e estou ficando

invisível.

 

Estar invisível

é ir-se apagando

aos olhos dos outros.

 

Ser uma memória

antiga que ninguém

se lembra mais.

 

Viver num quarto

menor e anexo

ao quintal vazio.

 

As pessoas jovens

o sinaleiro verde

e sua janela fechada.

 

No meio da conversa

dizer algo singelo

que ninguém percebe.

 

Não ser convidado

para nada porque

o seu lugar não existe.

 

Tenho 57 anos

e estou ficando

invisível.

 

Talvez fosse cedo

mas tive um derrame

e deixei derramar

a caneca de café.

 

domingo, 21 de julho de 2024

RETORNO AO FINAL


“ meu Deus, porque me abandonaste?

se sabias que eu não era Deus,

se sabias que eu era fraco”

Drummond

 

protagonista

de minha vida pregressa

hoje sou coadjuvante

de ruinas.

 

nas águas do rio

fiz algumas tentativas

mas acabei afogando

na correnteza.

 

mudei de fase:

virei pescador

de sonhos frustrados

à beira dos barrancos.

 

galopei como quem

sonha por estradas

poeirentas de Minas

Gerais, sozinho.


empinei pipas e

papagaios em céus

nevoentos de minha

infância distante.

 

virei (ou tentei virar)

compositor de vanguarda

e fiz parcerias utópicas

com célebres defuntos.

 

amante de belezas glaciais

as mulheres passaram

por minha vida como

barcos à vela naufragados.

 

fui poeta das condolências

em velórios de interior

quando o defunto era

o que menos importava.

 

Candidatei-me a representante

do povo, mas não tinha

propostas viáveis no bolso

da algibeira rota e furada.


 

 

 

 

 

sábado, 15 de junho de 2024

INSTANTE DE PURA POESIA


 

eu ontem, passando na calçada,

deparei-me com uma visão

aterradora de um pássaro

que, ao defender seu espaço

de um intruso invasor, levou

a pior na batalha sangrenta e,

roto e estropiado, na arvorezinha

mirrada, olhando de soslaio,

entre sangues, o espaço mítico

que habitara e cuidara durante

longos anos, agora perdido

para sempre.

 

solidariedade ao pássaro

ferido de morte.