sábado, 15 de junho de 2024

INSTANTE DE PURA POESIA


 

eu ontem, passando na calçada,

deparei-me com uma visão

aterradora de um pássaro

que, ao defender seu espaço

de um intruso invasor, levou

a pior na batalha sangrenta e,

roto e estropiado, na arvorezinha

mirrada, olhando de soslaio,

entre sangues, o espaço mítico

que habitara e cuidara durante

longos anos, agora perdido

para sempre.

 

solidariedade ao pássaro

ferido de morte.

 


quinta-feira, 13 de junho de 2024

Da Essencialidade da Água


 

poesia forte, pessoal, cheia de fúria e som como em Shakespeare. Milton Rezende atingiu o máximo de sua capacidade de expressão poética, pois conseguiu fazer poemas extremamente fortes sem um mínimo de sentimentalismo nem autopiedade. Pura experiência pessoal transposta para a Poesia

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Ivo Barroso, disse isso sobre o  meu livro “Um Andarilho Dentro de Casa”(2017), mas que serve, igualmente, para o “Da Essencialidade da Água”, que ele, infelizmente, não conhecerá, pois, faleceu em 2021.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Da Essensialidade da Água


 

Milton Rezende, escreve em prosa e poesia e conta com quatorze livros publicados. Suas obras têm sido publicadas em diversos blogs, revistas, jornais e sites de literatura no Brasil e alguns no exterior.

Em Da essencialidade da água, o poeta lida com a morte, abordando inquietações provocadas pela contemplação da finitude, em todas as suas camadas, até chegar ao desfecho inegociável. Paradoxalmente, a vida transborda em todos os versos e se fortalece na contemplação das dificuldades provocadas por limitações físicas.

Sobre o autor, Edson Braz da Silva diz: “Grande poeta, de obra densa, intrigante, que não permite a indiferença ou muxoxo quando é lida. Poeta definitivo, que diz o que quer dizer, sem reticências, sem rodeios, porém sem desperdiçar palavras, sem jogar ao ar blasfêmias estéreis, sem pirotecnia. Às vezes é seco como Drummond, tétrico como Edgar Alan Poe, mortal como Augusto dos Anjos, sensitivo como Fernando Pessoa, mas é sempre Milton Rezende.”

Da essencialidade da água está em pré-venda. Quem adquirir o livro, neste período, receberá de brinde 1 exemplar da antologia de minicontos Brevemente infinito.


 


sábado, 8 de junho de 2024

Da Essencialidade da Água

 



Saindo meu novo livro pela Editora Sinete: “Da Essencialidade da Água”. Está em pré-venda com desconto e brinde. Corra lá no site da editora e garanta o seu exemplar!


Trata-se do primeiro original poético do escritor e poeta Milton Rezende nos últimos sete anos, desde a publicação de “Um Andarilho Dentro de Casa”, em 2017. Depois disso aconteceram mais quatro livros publicados, sendo que o primeiro deles foi o romance “Mais uma Xícara de Café – One More Cup of Coffee” (2017), seguido de uma compilação de textos e poemas derivados de sua fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, Heteronímia e Inventário Poético em Milton Rezende”(2015), de Maria José Rezende Campos e que foi publicado em 2019 sob o título de “A Casa Improvisada”, outro foi uma seleção de poemas e textos contemplados, viabilizados e publicados através da Lei Aldir Blanc “Anímica” (2022)  e finalmente a sua “Antologia Poética – Literária I”, que foi publicada no Brasil, Portugal, Angola e Cabo Verde em 2022.


segunda-feira, 3 de junho de 2024

459 A


 


Abandono total

numa casa de 29 m2

com vista de fundo

para um bambuzal.

O piso era claro

antes de eu pisá-lo,

mas depois a vida

converteu-se em

desordem e acordei

deitado de costas

num corredor

do lado de fora,

com a chave na mão

esquerda coberta de

sangue e a fúria cega

de quem não se lembra

de nada.


quarta-feira, 22 de maio de 2024

SOMBRAS



Por Milton Rezende

Vem de antes a consciência da dúvida de eu estar aqui e representar alguma coisa para além de mim. Sigo o percurso de volta para casa e é ali, onde os caminhos se bifurcam, que tenho a certeza de estar sozinho na noite imensa.
Deixei alguns propósitos que eu tinha e adotei outros que nem sequer conheço a razão de eles serem e no que vão dar, mas preciso manter as mãos ocupadas para não pensar sobre a inutilidade delas. Preciso encher a cabeça de sonhos para que ela não se perca no abismo de si mesma.
Vontade de poder ser eu e não ter que dissimular a minha incapacidade em astúcia. Gostaria de não estar de frente com a minha condição de estar ao lado. Poder gritar a verdade subitamente rejuvenescida por uma presença que a estimula, mas me faço calar no peito. Tenho certeza do medo que eu tenho, mas não tenho medo dessa certeza. Só um cansaço de ela ser real e irrevogável.
Vem de antes essa solidão de mim fechada numa ausência. Uma ausência que procura compensar a sua falta na exarcebação de um ego que mal se satisfaz. Houve em mim um tempo em que houve destino ou pelo menos uma crença nele. Havia a ideia de que a simultaneidade um dia poderia ser-me útil no que hoje ela tem de peso e grades humanas.
A felicidade ainda não era uma lembrança corroída pela sua impossibilidade. Muitas vezes nem era tanto pela falta de perspectivas, em que a vida se entremostrava como uma vaga imagem, mas pela minha cegueira de distinguir nos fatos uma possibilidade nítida. Eu acreditava que a vida fosse parcelas que iam se incorporando ao contato do amor e que um dia teríamos uma dimensão mais completa, mas cedo aprendi que nos alimentamos de nós mesmos até a exaustão de nossa precariedade.
E hoje, fechado num quarto público sem paredes, eu tenho apenas o silêncio vazio e uma mágoa secreta de mim mesmo. Uma mágoa de eu não poder ser nunca aquilo que não posso ser. Constato enfim a inexorabilidade do meu tédio e este amor a fazer-me furos na alma de eu contê-lo só em mim. Preciso fugir porque não posso mais me sustentar num arcabouço de desespero implícito. Sei que não posso dormir com esta culpa e fico ruminando uma sequência interminável de erros reincidentes. Tenho que retirar minhas esperanças das muletas de sonhos onde as coloquei e aprender a caminhar sem pernas. Vejo, sem os disfarces alegóricos, a situação real de eu não ter atributos próprios para me suprir.
Deitado na cama de uma calçada eu fito o teto de um quarto desejado onde eu poderia estar se ele existisse. Há uma sombra de mulher em meu sonho e o amor que eu tenho quer ter vida própria. Deixo-o sair e tentar sem mim o que não conseguimos estando juntos, mas ele volta esfacelado de andar sem rumo e nos abraçamos em angústia de não poder ser, de não poder ser assim.
Às vezes a sombra do meu sonho é real, mas meus olhos estão na penumbra de não saber isso. De não poder saber isso até que o dia amanheça e dissipe o equívoco. As árvores elétricas da cidade apagam os seus frutos de luz.
Na confusão de uma noite mal dormida, dirigo-me à central de meu tédio e corto minhas mãos. Mas elas, incansáveis em seu conhecimento de mim, continuam na trilha de uma fuga onde eu possa esconder o meu fracasso de ser eu. A mulher real, de uma janela real, dirige-me um sorriso de complacência, mas já não tenho mãos para abraçá-la. Vejo-a nitidamente perto e impossível e sorrio também, na ternura de uma vida devotada ao silêncio. Sei que estou longe de estar aqui.

Todas as reações:
Você, Anderson Pires Da Silva, Lísia Mattos e 1 outra pessoa

sexta-feira, 3 de maio de 2024

141 A



Sequência final

numa casa de 24 m2

com vista de frente

para um beco lateral.

O piso era grosso

antes de eu assimilá-lo,

mas como a vida

permaneceu em

desalinho eu adormeci

deitado de lado e tombado

em lençóis queimados

no espaço entre as camas.

Com uma aliança invisível

na mão direita e um cheiro

forte de esgoto vindo do banheiro.

E pensar que havia promessas

veladas feitas a mim mesmo

no escuro de uma vida desfalcada.

Pinturas metálicas malfeitas

no fundo de um espelho manchado

e de brilho opaco.