O
crítico e (é) o escritor – uma análise de “À flor da pele”, de Krishnamurti
Góes dos Anjos
Por Milton Rezende
“O eixo do mundo gastou-se”. E esta frase, dita por
um camponês iletrado da zona rural de Ervália, em Minas Gerais, revela duas
verdades: a primeira delas pela justeza do conceito que emite, tão sintetizado
que chega a doer. Definitivamente o eixo do mundo encontra-se gasto, desgastado
e ele agora, o mundo, gira louco, em descompasso e sem propósito de existir.
A segunda verdade é a de que não precisamos de um
conhecimento sistematizado, acadêmico, para fazer uma correta leitura do mundo.
Basta a intuição com sua carga de sabedoria implícita demonstrada pelo
Geraldinho, um lavrador incauto e descalço capinando a sua lavoura de café no
interior de Minas Gerais.
“come chocolates pequena, / come chocolates!
/ olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates” /, como já dizia o grande Fernando Pessoa.
Este pensamento surge numa época de distopias brilhantes,
de um brilho opaco, em que a vida surge ofuscada pela nossa incapacidade de
interpretação. Nunca o “the dream is over” anunciado por John Lennon no final
dos anos de 1970 foi tão pertinente como agora: o sonho acabou. Mesmo!
O
livro de contos “À flor da pele” (Editora Laranja Original, 2020), de
Krishnamurti surge num fatídico ano, marcado por uma pandemia, uma crise
econômica e uma crise política causada por um desgoverno nefasto sob todos os
aspectos, mas que foi escolhido por nós, brasileiros, em nossa falta de opção.
“À
flor da pele” aparece num momento conturbado como este para funcionar como um
contraponto e sua leitura serviu para quebrar alguns paradigmas disseminados
genericamente pelo senso comum no sentido de que um bom crítico literário não
seria, por definição, um bom escritor ou até mesmo o julgamento pernicioso de
que os críticos de literatura são, igualmente por definição, autores frustrados
que, não dando conta de escrever grandes
obras de ficção, passam a ser críticos literários; podendo ser muito competentes
no que fazem ao desempenhar tão nobre e necessária função.
Esses
conceitos vagos e sem fundamentos foram meio que disseminados e de certa forma
aceitos como uma regra geral. Mas não é, definitivamente, o caso do
Krishnamurti. E este seu livro de contos vem agora justamente para comprovar
este grande equívoco, ao afirmar que se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo
e com qualidade.
Krishnamurti
Góes dos Anjos com este seu “À flor da pele”, prova-nos que é possível ser um
ótimo crítico literário ao mesmo tempo que desenvolve uma literatura de criação
e de qualidade. O autor em questão tem se destacado como um dos nossos melhores
e mais profícuos críticos de literatura e respeitável resenhista, desenvolvendo
um trabalho muito importante de disseminação do gosto pela leitura ao
privilegiar sobretudo a literatura contemporânea de autores novos e emergentes
no cenário literário nacional.
O
escritor Krishnamurti, com suas múltiplas resenhas, faz exatamente esta ponte
entre os autores e os prováveis e eventuais leitores, tornando a leitura algo
fascinante. O seu brilhante “À flor da pele” é um livro de contos em que se
confirma esta grata surpresa de se encontrar no crítico renomado um autor de
muitos recursos e versado numa prosa literária de excelente fruição e
encantamento.
Os
contos são bem urdidos e transcorrem numa leitura agradável ao mesmo empo em
que subliminarmente, nos leva a muitas e diferentes reflexões. “Highly
Important! Revolution in Brazil!”, que abre o seu volume de contos narra uma
pretendida “Revolução no Brasil”, com uma deliciosa narrativa histórica sobre
uma utópica independência de Pernambuco nos idos de 1817. Parece, no entanto,
ser uma leitura atualizada do que somos ainda hoje, neste referencial projetado
de um Brasil do Século XXI. Quase nada mudou desde sempre.
Em
“Dois velhos ou quase velhos” Krishnamurti Góes dos Anjos nos apresenta um
diálogo telefônico entre dois amigos já velhos, ou quase velhos. Um mais
expansivo e o outro, retraído. Esse diálogo (ou pode-se mesmo dizer um quase
monólogo) transcorre mais com o expansivo falando e narrando as peripécias de
um encontro fortuito que ele teve com uma mulher jovem, “um avião”, numa viagem
de metrô. A ideia do expansivo era convidar o amigo retraído para tomarem uma
cerveja no bar “Lanterna dos Afogados” e conversarem, mas, diante da recusa
desanimada do amigo a conversa, toda ela, se dá ao telefone mesmo. Então ele foi
narrando seus dissabores a partir daquele encontro providencial e meio
acachapante numa linha de metrô. O que aconteceu ou deixou de acontecer era o
que se pode esperar de uma conversa entre a juventude radiante e a decrepitude
galopante de um velho ou quase velho; daí entendemos como os mais velhos quase
sempre se ressentem com os mais jovens, naquilo que se convencionou chamar de
choque de gerações: colocando os mais jovens numa escala ascendente de
jovialidade contra outro, decadente, numa escala decrescente de aniquilamento.
E logo ela, a moça bonita, para começo de conversa o chama de tio e isso o
destrói e corrói pela carga de verdade que encerra. E ele, um viúvo solitário,
perde ali as suas ilusões afetivas e sexuais e se descobre pobre num país
cheios de mazelas políticas e econômicas. Então o expansivo estava fragilizado
e queria, conversando com o amigo, algo de reconfortante entre iguais em idade,
mas, diante da recusa do outro em sair (também ele um solitário e subempregado,
sem dinheiro e meio deprimido). A recusa do amigo mais a súbita consciência de
sua decrepitude que chegava aos galopes levaram o expansivo, já agora amargo
como um limão, a encerrar subitamente a conversa telefônica dizendo: -- “vou
sozinho sim e não quero mais falar, não quero ouvir mais nada de você. A vida é
mesmo um absurdo e eu vou ficar sentado à mesa com minha cerveja no bar ‘Lanterna
dos Afogados’. Quero apenas isso e é o que me resta, ficar sozinho, sentado num
bar tomando cerveja. Tchau!” Dez minutos depois que ele chegara ao bar, aquela
moça radiante do metrô liga para um taxista pedindo que a levasse, numa
corrida, ao bar de sempre, no “Lanterna dos Afogados” onde ela mantinha suas
conversas juvenis e seus encontros (amorosos?) com os homens.
O
conto “O Casamento” narra uma história de desencontros. Pode parecer uma
contradição, pois casamento pressupõe união, congraçamento, festividades. Mas aqui
não. O autor Krishnamurti narra uma cerimônia de casamento em que os convivas
parecem deslocados. O personagem central é um senhor de meia idade que mora em
outra cidade e o seu motorista já está esperando para voltarem. Ele então
adentra o recinto aparentemente sem conhecer ninguém e aguarda o casamento. A
noiva se atrasa, é praxe, então ele foi conduzido pelo cerimonial para um
formação de casais numa fila de padrinhos. Dão-lhe um par e ela enlaça o seu
braço, mas não há sintonia entre eles. Logo ela cede o lugar para outra moça,
Mara, que parece ter se interessado pelo senhor grisalho e vice-versa. Nisso o
noivo aproximou-se dele. O terno o incomodava, pois não estava acostumado a
esse tipo de roupa. O noivo então dá-lhe um abraço tipo quebra-ossos e diz:
“estou muito feliz que tenha vindo. Sabe?” Sorriram afetuosamente, mas foram
interrompidos pela mestra de cerimônias. Logo chega um senhor, espaçoso, e se
anuncia como o pai do noivo, depois acrescentando ser o pai adotivo. Isso gera
uma pergunta entre os convivas: e cadê o pai verdadeiro, não veio? A cerimônia começa e este homem se divide
entre a vontade de ficar e continuar na companhia de Mara ou voltar, pois o
tempo urge, o casamento atrasou e o motorista o espera com hora previamente
marcada. “A gravata apertava como a corda de um enforcado” e ainda mais a
preocupação com o horário. Falou com a Mara que morava em outro estado, cinco
horas de viagem, com hora marcada de voltar e que ela explicasse ao noivo a sua
ausência na festa. Hora de voltar e sair do casório, com ele pesaroso por
deixar aquela agradável companhia. Despedem-se enternecidos. Corte! e o autor
da narrativa já nos coloca na casa, no quarto do homem convidado que chegando
em sua casa vê e pega um porta-retratos. Nele a fotografia do homem que se
casou hoje, quando tinha quatro anos. E então fica pensando: “os olhos dele me
pareceram um pouco mais escuros que no dia em que ele saiu da sala de parto”.
O
ótimo conto “Enfermaria do Hospital Geral” confirma-se a impressão de que a
literatura tem, de fato, este poder de resgate sobre a condição humana e sua
transitoriedade evidenciada num leito de U.T.I, numa enfermaria de um hospital
geral que bem pode ser a alegoria do nosso próprio país, num mundo em
dissolução.
Mais
adiante, ainda somos surpreendidos com o excelente (e belíssimo) conto “Samírah
e a Noite dos Longos Punhais” em que a sensibilidade e engenho do autor nos
transporta para a cena dantesca da morte por afogamento do menino sírio Aylan
que chocou o mundo inteiro ao aparecer estirado na praia, numa triste saga de
refugiados ao redor do planeta à procura de um lugar para viver em busca de
paz. Um relato que eu diria poético e carregado de humana beleza mesmo em se
tratando de uma tragédia, pois existe poesia mesmo em meio a toda a destruição
ocasionada por uma guerra fratricida em que o horror é tamanho que “os nossos
olhos são pequenos para ver”, no admirável poema de Carlos Drummond de Andrade.
Dito
isto é fechar o livro sensibilizado e sempre atento ao papel catártico que a
literatura pode nos proporcionar, ainda que pese o imenso peso da nossa
condição humana.
“era
o corpo de um menino vestido com camisa de malha vermelha, calça azul-marinho e
tênis marrom, deitado de bruços na praia. Era Aylan.”


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