Por Milton Rezende
Eu havia planejado a minha “Trilogia das Afinidades” em três livros, em três aspectos da minha literatura, quais sejam: “De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – Uma Introdução”, “A Magia e a Arte dos Cemitérios” e “Rock: O Gritos Ancestral”. Este último volume foi abortado, não tive condições de leva-lo adiante por causa de diversos favores, o principal deles foi o derrame cerebral (avc) que me aconteceu em 2016. Só escrevi essa pequena introdução abaixo como projeto que não se realizou. Agora eu fico na torcida de que alguém o faça. Fiz este convite ao professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) Anderson Pires Da Silva. Oxalá que o faça.
No início era o verbo e o verbo era transitivo, pedia
complemento: aí veio o Rock’n’Roll.
Falar sobre a música, especialmente sobre o rock é um pouco como tentar fazer uma pequena gênese da aventura humana no planeta. Dos gritos primitivos dos homens das cavernas até o entrosamento quase perfeito entre baixo, bateria, guitarras e vozes. Um fio condutor atravessa a idade dos tempos e celebra a ancestralidade do rock na emergência daquele grito primal, que era um transbordamento de algo que já não cabia mais no invólucro pré-moldado das aparências. O homem não coube, e nunca poderia caber, dentro de si mesmo. O corpo era uma prisão e, simultaneamente, um instrumento de libertação. Cabia, pois, utilizá-lo para expressar o que irrompia de dentro – como lavas de um vulcão de sonoridades.
UM POUCO DA HISTÓRIA
O Rock, desde os seus primórdios, na década de
1950, parece retirar a sua força primitiva da simplicidade e veio evoluindo com
sofisticação e audácia a partir do rhythm and blues dos negros americanos.
A expressão Rock’n’Roll surgiu
quando um radialista, Alan Freed, criou um programa de rádio com este nome em
1951 para divulgar a nova música que estava sendo feita por negros e sendo
apreciada crescentemente pelos brancos. O cinema tratou logo de difundir o novo
estilo, sobretudo com o filme “Sementes da Violência” (1955), que lançou a
música “Rock Around the Clock”, de Bill Haley, como trilha sonora. Mas a
verdadeira explosão ainda estava por vir e chegou personificada na figura
pélvica de Elvis Presley e, como toda novidade, causou reações da velha guarda
a ponto de Frank Sinatra declarar que o Rock era “a música marcial de todos os
delinquentes juvenis na face da terra”.
Como sempre, a reação geralmente fomenta o objeto criticado e então a contracultura se alastrou com a Beat Generation ou Geração Beat, que rendeu frutos sobretudo na literatura.
SEGUINDO A CRONOLOGIA
Bill Haley, com sua
eletrizante “Rock Around the Clock”, pode ser apontado como o “pai do rock”.
Nascido em Detroit em 1927, aos treze anos ele tocava guitarra no estilo
country & western em shows ambulantes e rádios do interior. O rádio
ofereceu-lhe um emprego estável e Bill tornou-se diretor de programação de uma
emissora independente da Pensilvânia. Mas Haley tinha, como Alan Freed, um bom
ouvido. Sempre ligado no que acontecia à sua volta, observava o interesse
crescente dos adolescentes brancos pelos programas de estações dos negros e em
suas escapadas para os guetos, ele analisava o ritmo, a melodia e o apelo.
Começou então a experimentar, juntando aqueles ritmos ao seu repertório básico
de country e fazendo uma síntese com o rhythm and blues: nascia assim o
rock’n’roll.
Elvis Presley tinha com
ele a fórmula do rock: nascera e crescera ouvindo blues e country music.
Nascido em 1935, em Tupelo, Mississipi, mudou-se com a família para Memphis,
Tennessee aos 13 anos de idade e em 1958 chegava ao auge do sucesso. A
importância histórica de Elvis e inegável. Ele foi o grande pioneiro, o
primeiro a ousar expressar, com a sua voz e o seu corpo, as sensações
provocadas pela nova música. As apresentações ao vivo de Elvis botavam fogo na
plateia, como nunca havia se visto e o seu comportamento no palco era inovador:
seu famoso rebolado de quadris tornou-se um marco no show business.
Chuck Berry é uma figura
decisiva na história do rock, ligando o blues ao pop e levando a música negra
às plateias brancas. Não se sabe ao certo o ano do seu nascimento, mas o lugar
foi Saint Louis, Missouri e ele começou tocando num coro de igreja, aos seis
anos. No início dos anos 50 formou um grupo no colégio e depois foi pra
Chicago, tocando com Muddy Waters. Gravou seu primeiro disco, Maybellene pela
gravadora Chess Records e não parou mais de emplacar sucessos até 1961.
Desapareceu por algum tempo, mas retornou às paradas em 1972. John Lennon
chamava-o de “meu ídolo” e a sobrevivência artística de Berry é realmente um
fenômeno, pois, com a sua música simples, atravessou décadas a fio, quando o
Rock’n’Roll já havia atingido a sofisticação e a complexidade – para além da
espontaneidade instintiva dos seus primeiros tempos.
Little Richard encarnou
aquela essência básica do rock, ou seja, balanço, tumulto, barulho, confusão e
excesso de energia. Seus grandes sucessos foram Tutti Frutti e Long Tall Sally
que estouraram, respectivamente, em 1955 e 1956. Quando abria a boca promovia
um massacre vocal que mal permitia que se compreendesse as letras e parecia que
tudo se resumia na onomatopeia “a-wop-bop-a-loo-bob-lop-bam-boom” que, no
entanto, sifinificava alguma coisa para quem quisesse entender e havia muitos
que compravam os seus discos e Little Richard não desapontava. Suas
apresentações ao vivo faziam todo mundo dançar. Começou sua carreira cantando
em igrejas e aos quinze anos já era um intérprete do Blues.
A Era dos Beatles
(1956-1970):
BEATLES FOREVER
Estamos no ano de 1967, mais precisamente em junho de 1967 e o mundo acaba de ser abalado por um cataclismo poético-sonoro cujos efeitos ainda hoje não foram totalmente rastreados ou compreendidos. Sabe-se, no entanto, que o efeito imediato foi devastador e que os efeitos secundários se estenderão ao longo do tempo enquanto o tempo tiver essa denominação.
Este abalo musical tinha um nome comprido como longa e tortuosa e trabalhada foi sua elaboração. Era um objeto de vinil envolto por uma capa repleta de personalidades e de flores e que se chamava Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band. O Lp em questão havia sido gravado por um grupo de rock (não por acaso o mais famoso) conhecido como Beatles ou The Beatles ou The Silver Beatles ou Long John and the Silver Beatles ou Johnny and the Moondogs ou ainda e finalmente The Quarryman. Este último nome foi na verdade a primeira denominação do grupo, em 1957, portanto dez anos antes do divisor-de-águas ocasionado pelo Sgtº Peppers. Naquela época a formação dos Beatles trazia Pete Best na bateria e somente em 1962 é que Ringo Starr veio se juntar a John Lennon, Paul McCartney e George Harrison; formando então o famoso Fab(ulous) Four de Liverpool, cidade natal de todos eles, situada no noroeste da Inglaterra, às margens do rio Mersey.
O que se seguiu ao encontro destes quatro rapazes já é história. Primeiro foram as importantes presenças do empresário Brian Epstein (que chegou a ser chamado de “o quinto Beatle”) e do produtor George Martin. Depois vieram os inúmeros shows por toda a Europa, as turnês americanas, a instalação da beatlemania em todo o mundo e, paralelamente a toda essa loucura, as gravações em estúdio.
A estreia se dá com o Lp Please Please Me (1963), logo depois aparece With The Beatles (1963); seguido por A Hard Day’s Night (1964) – também transformado em filme por Richard Lester e Beatles For Sale (1964). Em 1965 é gravado o disco Help! com um filme homônimo também dirigido por Lester. A partir de 1966, com o Lp Revolver, os Beatles começam a consolidar uma nova e forte tendência musical-evolutiva delineada no Lp anterior Rubber Soul (1965) e que iria culminar em 1967 com a exuberância sonora & poética do Lp Sgtº Peppers Lonely Hearts Club Band, que significou uma ruptura definitiva com a música que eles mesmos faziam até então e com a própria música, tomada como um todo, que era feita na época pelos conjuntos de rock, daí sua importância como um marco deflagrador de todo um processo rico em criatividade que se seguiu. Ainda em 1967 sai o Lp Magical Mystery Tour (trilha sonora de um filme a cores realizado especialmente para a televisão). No ano seguinte foram lançados dois Lps: Hey Jude e o álbum duplo The Beatles ou White Álbum ou mais simplesmente ainda “Álbum Branco” como ficou conhecido no Brasil. Em 1969, já com todos os problemas se agravando e com um prenúncio de dissolução do grupo, os Beatles voltam aos estúdios da Apple e destilam seus talentos em mais dois Lps de excelente qualidade: Abbey Road e Yellow Submarine, este último transformado em um desenho animado para o cinema com trilha sonora composta e orquestrada por George Martin (lado 2 do disco). Em 1970, ano da separação oficial do grupo, foi lançado o Lp Let it Be juntamente com o filme que levava o mesmo nome. Foi, na verdade, um lançamento patrocinado pela gravadora EMI e produzido por Phil Spector sem o conhecimento e a aprovação formal dos Beatles e inclusive com críticas destes quanto ao resultado final. Mas os Beatles já não existiam mais como conjunto e o disco acabou saindo. Apesar de tudo Let it Be é muito bom e digno de constar com igualdade de condições na discografia oficial.
Depois disso veio o fim do grupo, o fim do sonho (“the dream is over”), mas com o direito de ainda prolongar a noite em que se sonhava por mais um Lp: Beatles Forever (1972), lançado somente no Brasil, Argentina e Espanha, contendo algumas das suas melhores músicas.
Mesmo para alguém que não tenha vivido aquela época (aquela mágica década de 1960 e seus desdobramentos nos anos 1970) basta uma simples audição das músicas dos Beatles para compreender que o legado deste conjunto é permanente e imune à corrosão do tempo (este elemento que realmente define o “quem é quem” nas artes no fim das contas).
Mais de meio século depois da explosão do grupo
nós podemos perceber ainda hoje sinais evidentes da permanência e até mesmo de
um novo ressurgimento (“eterno retorno”)
do fenômeno Beatles. Aquele final da
música A Day in the Life idealizado
por Lennon nos estúdios de gravação,
pode ser estendido e aplicado aos próprios Beatles,
ou seja, a ideia de “um som evoluindo do
nada até o fim do mundo”. Esta frase diz bem da trajetória e é uma síntese
musical do grupo. Os Beatles serão sempre este som
evoluindo do nada até o fim do mundo, até o fim de tudo. Sempre.

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