quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O PRIVILÉGIO DOS MORTOS


 

“o privilégio dos mortos”, de Whisner Fraga


Por Milton Rezende

 

o filme “Bonitinha, mas ordinária”, um clássico do cinema nacional, com bela atuação do saudoso José Wilker e inspirado na célebre peça de Nelson Rodrigues. Mas o bordão/ideia-fixa do filme, que foi repetido diversas vezes pelo personagem Edgard, é “O mineiro só é solidário no câncer, frase atribuída a Otto Lara Resende.

Esta frase tornou-se icônica, mas não é bem verdade. Entretanto dita pelo ator José Wilker com tanta e especial ênfase que eu me recordo até hoje, donde se depreende que a ênfase é tudo. O próprio Drummond tem um verso neste sentido ao dizer “as coisas/que triste são as coisas consideradas sem ênfase” (in A Flor e a Náusea).

Então, para todos os efeitos, tornou-se realmente verdade que o mineiro só é solidário no câncer. Por extensão poderíamos dizer, alargando o seu horizonte e seu alcance que “O brasileiro só é solidário no câncer”. Aliás, eu acho que é assim que se encontra no filme, não tenho bem certeza.

No romance de Whisner Fraga “o privilégio dos mortos”, publicado pela Editora Patuá no ano de 2019, tem muito disso, pois trata-se de um romance composto, todo ele, de frases poéticas, algumas de efeito. Poder-se-ia dizer, exagerando um pouco, já que o livro é extenso com 250 páginas, que é um longo poema em prosa. Mas não. São frases poéticas mesmo, soltas, avulsas, lapidares, como pássaros esvoaçantes, em todo o corpo do livro. Você pode ir pinçando aqui e acolá a seu bel prazer, estas frases, helena.

O narrador, de passagem por Tejuco, sua cidade natal, retornando a ela diz: “fui até a rua seis e, a poucos passos do portão verde da casa em que meu amigo morou, ainda estava em dúvida se devia gritar por ele ou não”. E foi assim que o personagem-narrador “começou a questionar a sua morte” a morte do seu amigo heitor. E para ele, o narrador, “o processo só se completa quando eu contemplo o cadáver, quando atesto, que a pessoa abandonou, de fato, esse mundo”. “e eu não queria enlouquecer, pois os loucos sofrem demais, helena.

Mais adiante o narrador segue introjetando a perda do amigo à sombra de sua cidade natal Tejuco.

“e na noite anterior, helena, eu vinha cansado de outros juízos e não consegui, por um momento, acatar as pistas da lógica e depois, depois, helena, convivia com essa excentricidade: eu precisava ver o corpo, eu precisava tocar o frio, a ausência, a rigidez, para me certificar do fim e foi isso que se deu, certamente foi isso, porque eu havia deixado Tejuco e presenciei a morte de meu amigo, apenas naquela folha a-quatro descorada, que anunciava a missa de sétimo dia”.

“o pânico é uma necessidade de deserção”.

E o narrador do livro, num paroxismo de álcool e de delírio desenterra o seu amigo heitor. Este romance é feito, todo ele, assim: não há um enredo definido e obedece ao fluxo de consciência do narrador/autor.

Outro recurso utilizado, além de ser escrito totalmente em letras minúsculas, até para nomes próprios é a inserção da “personagem” helena, sempre citada ao longo do livro, dando a ele uma coloquialidade e uma fluidez tremenda. Verdadeiramente um achado literário, não é mesmo, helena?

É quando afinal, e ao final do livro, a turma chega ao cemitério de Tejuco para celebrar a morte do amigo heitor. E eles são alguns e a turma entre excitada e embriagada, pois embriaguez e sensualidade é o que de melhor define a morte, desde os filmes do Nosferatu, de Marnau, com excepcional interpretação de Max Schreck, quando ele sobe as escadas do imponderável e do inevitável. E então esta turma suborna o coveiro com uma garrafa de cachaça e vão todos celebrar a Morte, a morte do amigo heitor e numa “evasão” erótica de corpos despindo de suas vestes e dançando sobre as tumbas que nem observam quando o narrador do romance se distancia uns quinze metros rumo ao túmulo do seu amigo heitor e o desenterra e abrindo o  caixão abraça o cadáver do amigo “vendo e sentindo o corpo do seu amigo inchado, seu amigo incompleto, seu amigo carcomido, seu amigo escurecido e sente vontade de abraça-lo, de  beijá-lo como fazem aqueles que se despedem e o puxa para perto, sentindo tudo que eventualmente fora pele, que fora carne, que fora músculo, que fora união, cola nele e, mesmo enojado, avança seus lábios e aproxima a cabeça do seu peito e sente medo de que tudo desmorone, tem medo que algo que já tenha sido ele, heitor, esteja por perto e não goste daquele carinho, de forma que tenta não amarotar o terno cinza...” e se despede do seu amigo indagando:  “o experimento de deus tem prazo de validade?”

 

“a proximidade da morte fortalece minha fé,

o que me resta senão isso?

resta-lhe o mundo.

e a esperança?

a esperança não.

domingo, 4 de janeiro de 2026

À FLOR DA PELE


 

O crítico e (é) o escritor – uma análise de “À flor da pele”, de Krishnamurti Góes dos Anjos


Por Milton Rezende

 

“O eixo do mundo gastou-se”. E esta frase, dita por um camponês iletrado da zona rural de Ervália, em Minas Gerais, revela duas verdades: a primeira delas pela justeza do conceito que emite, tão sintetizado que chega a doer. Definitivamente o eixo do mundo encontra-se gasto, desgastado e ele agora, o mundo, gira louco, em descompasso e sem propósito de existir.

A segunda verdade é a de que não precisamos de um conhecimento sistematizado, acadêmico, para fazer uma correta leitura do mundo. Basta a intuição com sua carga de sabedoria implícita demonstrada pelo Geraldinho, um lavrador incauto e descalço capinando a sua lavoura de café no interior de Minas Gerais.

“come chocolates pequena, / come chocolates! / olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates” /, como já dizia o grande Fernando Pessoa.

Este pensamento surge numa época de distopias brilhantes, de um brilho opaco, em que a vida surge ofuscada pela nossa incapacidade de interpretação. Nunca o “the dream is over” anunciado por John Lennon no final dos anos de 1970 foi tão pertinente como agora: o sonho acabou. Mesmo!

O livro de contos “À flor da pele” (Editora Laranja Original, 2020), de Krishnamurti surge num fatídico ano, marcado por uma pandemia, uma crise econômica e uma crise política causada por um desgoverno nefasto sob todos os aspectos, mas que foi escolhido por nós, brasileiros, em nossa falta de opção.

“À flor da pele” aparece num momento conturbado como este para funcionar como um contraponto e sua leitura serviu para quebrar alguns paradigmas disseminados genericamente pelo senso comum no sentido de que um bom crítico literário não seria, por definição, um bom escritor ou até mesmo o julgamento pernicioso de que os críticos de literatura são, igualmente por definição, autores frustrados que,  não dando conta de escrever grandes obras de ficção, passam a ser críticos literários; podendo ser muito competentes no que fazem ao desempenhar tão nobre e necessária função.

Esses conceitos vagos e sem fundamentos foram meio que disseminados e de certa forma aceitos como uma regra geral. Mas não é, definitivamente, o caso do Krishnamurti. E este seu livro de contos vem agora justamente para comprovar este grande equívoco, ao afirmar que se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo e com qualidade.

Krishnamurti Góes dos Anjos com este seu “À flor da pele”, prova-nos que é possível ser um ótimo crítico literário ao mesmo tempo que desenvolve uma literatura de criação e de qualidade. O autor em questão tem se destacado como um dos nossos melhores e mais profícuos críticos de literatura e respeitável resenhista, desenvolvendo um trabalho muito importante de disseminação do gosto pela leitura ao privilegiar sobretudo a literatura contemporânea de autores novos e emergentes no cenário literário nacional.

O escritor Krishnamurti, com suas múltiplas resenhas, faz exatamente esta ponte entre os autores e os prováveis e eventuais leitores, tornando a leitura algo fascinante. O seu brilhante “À flor da pele” é um livro de contos em que se confirma esta grata surpresa de se encontrar no crítico renomado um autor de muitos recursos e versado numa prosa literária de excelente fruição e encantamento.

Os contos são bem urdidos e transcorrem numa leitura agradável ao mesmo empo em que subliminarmente, nos leva a muitas e diferentes reflexões. “Highly Important! Revolution in Brazil!”, que abre o seu volume de contos narra uma pretendida “Revolução no Brasil”, com uma deliciosa narrativa histórica sobre uma utópica independência de Pernambuco nos idos de 1817. Parece, no entanto, ser uma leitura atualizada do que somos ainda hoje, neste referencial projetado de um Brasil do Século XXI. Quase nada mudou desde sempre.

Em “Dois velhos ou quase velhos” Krishnamurti Góes dos Anjos nos apresenta um diálogo telefônico entre dois amigos já velhos, ou quase velhos. Um mais expansivo e o outro, retraído. Esse diálogo (ou pode-se mesmo dizer um quase monólogo) transcorre mais com o expansivo falando e narrando as peripécias de um encontro fortuito que ele teve com uma mulher jovem, “um avião”, numa viagem de metrô. A ideia do expansivo era convidar o amigo retraído para tomarem uma cerveja no bar “Lanterna dos Afogados” e conversarem, mas, diante da recusa desanimada do amigo a conversa, toda ela, se dá ao telefone mesmo. Então ele foi narrando seus dissabores a partir daquele encontro providencial e meio acachapante numa linha de metrô. O que aconteceu ou deixou de acontecer era o que se pode esperar de uma conversa entre a juventude radiante e a decrepitude galopante de um velho ou quase velho; daí entendemos como os mais velhos quase sempre se ressentem com os mais jovens, naquilo que se convencionou chamar de choque de gerações: colocando os mais jovens numa escala ascendente de jovialidade contra outro, decadente, numa escala decrescente de aniquilamento. E logo ela, a moça bonita, para começo de conversa o chama de tio e isso o destrói e corrói pela carga de verdade que encerra. E ele, um viúvo solitário, perde ali as suas ilusões afetivas e sexuais e se descobre pobre num país cheios de mazelas políticas e econômicas. Então o expansivo estava fragilizado e queria, conversando com o amigo, algo de reconfortante entre iguais em idade, mas, diante da recusa do outro em sair (também ele um solitário e subempregado, sem dinheiro e meio deprimido). A recusa do amigo mais a súbita consciência de sua decrepitude que chegava aos galopes levaram o expansivo, já agora amargo como um limão, a encerrar subitamente a conversa telefônica dizendo: -- “vou sozinho sim e não quero mais falar, não quero ouvir mais nada de você. A vida é mesmo um absurdo e eu vou ficar sentado à mesa com minha cerveja no bar ‘Lanterna dos Afogados’. Quero apenas isso e é o que me resta, ficar sozinho, sentado num bar tomando cerveja. Tchau!” Dez minutos depois que ele chegara ao bar, aquela moça radiante do metrô liga para um taxista pedindo que a levasse, numa corrida, ao bar de sempre, no “Lanterna dos Afogados” onde ela mantinha suas conversas juvenis e seus encontros (amorosos?) com os homens.

O conto “O Casamento” narra uma história de desencontros. Pode parecer uma contradição, pois casamento pressupõe união, congraçamento, festividades. Mas aqui não. O autor Krishnamurti narra uma cerimônia de casamento em que os convivas parecem deslocados. O personagem central é um senhor de meia idade que mora em outra cidade e o seu motorista já está esperando para voltarem. Ele então adentra o recinto aparentemente sem conhecer ninguém e aguarda o casamento. A noiva se atrasa, é praxe, então ele foi conduzido pelo cerimonial para um formação de casais numa fila de padrinhos. Dão-lhe um par e ela enlaça o seu braço, mas não há sintonia entre eles. Logo ela cede o lugar para outra moça, Mara, que parece ter se interessado pelo senhor grisalho e vice-versa. Nisso o noivo aproximou-se dele. O terno o incomodava, pois não estava acostumado a esse tipo de roupa. O noivo então dá-lhe um abraço tipo quebra-ossos e diz: “estou muito feliz que tenha vindo. Sabe?” Sorriram afetuosamente, mas foram interrompidos pela mestra de cerimônias. Logo chega um senhor, espaçoso, e se anuncia como o pai do noivo, depois acrescentando ser o pai adotivo. Isso gera uma pergunta entre os convivas: e cadê o pai verdadeiro, não veio?  A cerimônia começa e este homem se divide entre a vontade de ficar e continuar na companhia de Mara ou voltar, pois o tempo urge, o casamento atrasou e o motorista o espera com hora previamente marcada. “A gravata apertava como a corda de um enforcado” e ainda mais a preocupação com o horário. Falou com a Mara que morava em outro estado, cinco horas de viagem, com hora marcada de voltar e que ela explicasse ao noivo a sua ausência na festa. Hora de voltar e sair do casório, com ele pesaroso por deixar aquela agradável companhia. Despedem-se enternecidos. Corte! e o autor da narrativa já nos coloca na casa, no quarto do homem convidado que chegando em sua casa vê e pega um porta-retratos. Nele a fotografia do homem que se casou hoje, quando tinha quatro anos. E então fica pensando: “os olhos dele me pareceram um pouco mais escuros que no dia em que ele saiu da sala de parto”.

O ótimo conto “Enfermaria do Hospital Geral” confirma-se a impressão de que a literatura tem, de fato, este poder de resgate sobre a condição humana e sua transitoriedade evidenciada num leito de U.T.I, numa enfermaria de um hospital geral que bem pode ser a alegoria do nosso próprio país, num mundo em dissolução.

Mais adiante, ainda somos surpreendidos com o excelente (e belíssimo) conto “Samírah e a Noite dos Longos Punhais” em que a sensibilidade e engenho do autor nos transporta para a cena dantesca da morte por afogamento do menino sírio Aylan que chocou o mundo inteiro ao aparecer estirado na praia, numa triste saga de refugiados ao redor do planeta à procura de um lugar para viver em busca de paz. Um relato que eu diria poético e carregado de humana beleza mesmo em se tratando de uma tragédia, pois existe poesia mesmo em meio a toda a destruição ocasionada por uma guerra fratricida em que o horror é tamanho que “os nossos olhos são pequenos para ver”, no admirável poema de Carlos Drummond de Andrade.

Dito isto é fechar o livro sensibilizado e sempre atento ao papel catártico que a literatura pode nos proporcionar, ainda que pese o imenso peso da nossa condição humana.

“era o corpo de um menino vestido com camisa de malha vermelha, calça azul-marinho e tênis marrom, deitado de bruços na praia. Era Aylan.”